A Demonização do Lucro


É frequente ouvir, nas mais variadas situações, discursos inflamados, repletos de ironia e sarcasmo, que procuram ridicularizar aqueles que procuram o lucro. E são aplaudidos de pé, como se algo de extraordinariamente belo ou correcto tivesse sido proferido. No entanto, aclamar tais discursos é semelhante a aplaudir um discurso que argumente a favor do retorno à barbárie: nada mais demonstra do que um profundo desconhecimento da função do lucro e do seu papel na evolução (alguns diriam progresso) da humanidade.

Antes de mais convém definir a origem do lucro. Usando as palavras de Ludwig von Mises,

“What produces a man’s profit in the course of affairs within an unhampered market society is not his fellow citizen’s plight and distress but the fact that he alleviates or entirely removes what causes his fellow citizen’s feeling of uneasiness.” 1http://mises.org/daily/4672

Contrariamente à crença popular, o lucro não representa algo que foi “retirado” do rendimento de outra pessoa: tal seria verdade se o total de riqueza ao longo do tempo fosse estático e variasse apenas a distribuição de rendimento. No entanto, a economia assume variações (positivas e negativas) de crescimento real – ao longo do tempo a quantidade absoluta de riqueza irá alterar-se. Numa economia em crescimento, o lucro representa parte da variação de prosperidade gerada, e não uma alteração na distribuição de rendimento.

O lucro tem origem, isso sim, na correcção de imperfeições dentro de uma sociedade. Estas imperfeições, que representam necessidades não satisfeitas nos consumidores, quando identificadas, representam oportunidades. Os empresários, usando bens de capital que não estavam a servir propósitos produtivos, procuram satisfazer as necessidades mais urgentes do modo mais eficiente e rápido possível. Claro que isto não é uma ciência exacta: a antecipação das necessidades, a disposição de recursos no processo produtivo, a procura de maior eficiência; tudo corresponde a possibilidades de sucesso, mas também de fracasso. E quando um empresário não consegue corrigir uma imperfeição do modo mais eficiente e barato possível, isso significa que incorrerá em perdas e será substituído por alguém que consiga fazer o mesmo de modo que melhor se adapte às necessidades da audiência.

A existência de lucro significa, portanto, a correcção de um problema. Claro que numa sociedade perfeitamente eficiente o lucro não existiria: a soma dos diferentes preços dos bens necessários à produção seria exactamente igual ao preço de venda. No entanto, enquanto o lucro existir, sabemos que uma necessidade não satisfeita foi atendida, sabemos que alguém estará melhor do que anteriormente.

Posto isto, fará sentido falar em lucros “excessivos”? Não, por dois motivos diferentes: não só o lucro é promotor da eficiência como não é possível definir uma fronteira para “lucro excessivo” sem o recurso a um critério arbitrário.

Pode parecer pouco importante este argumento da eficiência – “jargão”, preocupações fúteis e académicas, sem qualquer relevância no mundo real. No entanto, é importante recordar o problema fundamental da Economia: a escassez de recursos para satisfazer necessidade humanas ilimitadas. E é aqui que a questão da eficiência se torna pertinente – se for possível usar um mínimo de recursos no decorrer do processo produtivo, então mais recursos irão estar disponíveis para satisfazer as restantes necessidades. Mas como é que o lucro pode promover uma gestão mais eficiente dos recursos? Se pensarmos no lucro como uma percentagem da diferença entre o rendimentos da venda (o produto entre o preço de mercado e as quantidades vendidas) e o capital empregue ( Lucro = X% * [Rendimentos – Capital] ), e se tivermos em conta que o preço de mercado é um dado adquirido e as quantidades a vender são uma função do preço do mercado, a única maneira de conseguir aumentar o lucro é diminuindo o capital empregue na produção (p.e., através de melhoramentos tecnológicos), ou seja, utilizar o mínimo de recursos possíveis para atingir um mesmo output de produção. Posto de outro modo, os empresários terão todo o incentivo para atingir um máximo de eficiência na produção, pois o lucro será tão maior quão melhor sucedidos forem nessa tarefa.

Simultaneamente, não há um método para definir objectivamente o que é o “lucro excessivo”. Certamente, cada pessoa terá a sua própria definição, que será fundada em observações mais ou menos precisas. No entanto, quando confrontada com uma questão do tipo “Porque é que o limite é X€ e não X-100€ ou X+500€?”, não é possível apresentar nenhuma razão lógica para esse limite (que foi definido arbitrariamente). Claro que este é precisamente o mesmo problema de que padecem os impostos (“Porque é que a taxa é de X% e incide sobre aqueles bens/rendimentos?”). Tal fronteira apenas pode corresponder a um julgamento de valor. E é aí que reside o busílis da questão: julgamentos de valor (como “excessivo”, “bom”, “mau”, “pobre” ou “rico”) não servem – ou não deviam servir – como elementos de formação de normas em sociedade.

Faz então sentido demonizar o lucro? Parece-me óbvio que não. Se a não existência do lucro (como expressão de uma sociedade perfeitamente eficiente) seria o desejável, também é verdade que, enquanto ele existir, sabemos que a sociedade como um todo estará a caminhar para uma situação mais desejável. Por isso, tenho para mim que um discurso “anti-lucro” só poderá ser baseado num desconhecimento muito grande de como agem os seres humanos.

 


 

Convém fazer um esclarecimento adicional. Obviamente que, ao longo do texto, a exaltação ao lucro se fica pelo lucro “real”. Lucros “fabricados” graças a truques contabilísticos ou com o recurso a monopólios dados pelo Estado não são desejáveis, nem tampouco devem ser encorajados. Esta observação é pertinente porque há uma confusão muito grande entre o lucro e o “lucro contabilístico” – “Profit is a product of the mind, of success in anticipating the future state of the market.” 2http://mises.org/daily/2321#a5, segundo Mises. O recurso a ardis para alterar os resultados contabilisticos não acrescenta nada ao bem-estar criado pelo processo produtivo – tal surge antes da apuração dos resultados, sendo portanto um fenómeno completamente separado. É daí que surge este comentário.

Complementos:
The Ultimate Source of Profit and Loss on the Market, por Ludwig von Mises
Profit and Loss, por Ludwig von Mises

Referências   [ + ]

About the author

Lourenço Vales

Estudante de Economia na Nova SBE em Lisboa. Natural do Porto, nutre especial interesse pela Metodologia da Economia e pela Praxeologia.

103comments
A função social dos lucros numa economia de mercado « O Insurgente - 2011-05-22

[…] ainda assim o autor está de parabéns e recomendo sem hesitações a leitura integral do texto: A Demonização do Lucro. Por Lourenco […]

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