A Falácia da Janela Partida

“Nem a indústria em geral, nem a soma total do trabalho nacional são afectadas, quer janelas sejam partidas ou não.”

Alguma vez o leitor assistiu à fúria do bom dono de uma loja, o Sr. James B., quando o seu filho descuidadamente parte um vidro de uma das janelas da sua loja? Se o leitor alguma vez esteve presente nessa ocasião, com certeza observará o facto que todos os espectadores, ainda que sejam trinta, por aparente acordo comum, oferecem invariavelmente ao pouco afortunado dono da loja o seguinte consolo: “É um vento muito triste aquele que não traz nada de bom a ninguém. Toda a gente tem que viver, e o que seria dos os vidraceiros, se os vidros das janelas nunca se partissem?”

Agora, esta forma de consolação contém em si uma teoria completa, que convém analisar cuidadosamente neste caso simples, uma vez que é precisamente a mesma falácia, que infelizmente, regula a maior parte das nossas instituições económicas.

Suponhamos que custa seis francos reparar os estragos, e portanto, o vidraceiro arrecadará com a reparação seis francos – essa transacção encoraja um volume de negócios de seis francos – eu reconheço isso; eu não apresento uma única palavra com esse facto; o raciocínio até aqui está correcto. O vidraceiro chega, faz o seu trabalho e recebe seis francos, esfrega as mãos, e no fundo do seu coração, abençoa a criança descuidada. Isto é tudo o que é visível.

Mas se, por alguma razão, o leitor chegar à conclusão, como é muitas vezes o facto, que é uma coisa boa quebrar janelas, uma vez que provoca a circulação de dinheiro, e que como resultado, estimula a economia em geral, serei obrigado a exclamar: “Pára! A tua teoria apenas se limita àquilo que é visível; não considera aquilo que é invisivel.”

É invisível o facto que, uma vez que o nosso dono da loja gastou os seis francos a reparar a janela, que ele não os poderá gastar noutra coisa. É invisível o facto de que, se ele não tivesse que reparar a janela, que ele talvez comprasse um novo par de sapatos, ou um livro para a sua biblioteca. Resumindo, ele teria gasto os seis francos de alguma forma, não tivesse ocorrido o acidente com a sua janela.

Analisemos como é que a indústria, em geral, é afectada por este evento. A janela, uma vez partida, estimula o negócio do vidraceiro em seis euros: e isto é o que é visível.

Se a janela não tivesse sido partida, o sapateiro (ou outro comerciante) teria beneficiado de um negócio de seis euros: esta é a parte invisível.

E se o que é invisível, não é considerado, porque é um facto negativo, da mesma maneira que aquilo que é visível, porque é um facto positivo, será percebido que nem a indústria em geral, nem a soma total do trabalho nacional, é afectada, quer janelas sejam partidas ou não.

Agora, consideremos o caso do Sr. James B. Nesta situação, em que a janela é partida, ele gasta os seis francos, e não fica com mais nem com menos do que já possuía antes, ou seja, com uma janela.

Suponhamos agora que a janela não tenha sido partida. Nesse caso, ele teria gasto os seis francos num par de sapatos, e portanto teria um par de sapatos e mais uma janela. Como o Sr. James B. é parte da sociedade, esta, deve chegar à conclusão, tudo considerado, e fazendo uma estimativa dos seus bens e dos seu trabalho, que a sociedade perdeu o valor equivalente à janela partida.

De modo a que se chega a uma conclusão inesperada: “a Sociedade perde o valor das coisas que são destruídas inutilmente”, e aqui devemos chegar a uma máxima que porá os cabelos em pé aos proteccionistas – destruir, estragar, desperdiçar não é encorajar o trabalho nacional; ou posto mais sucintamente: “destruição não é lucro.”

O que dirá o  Moniteur Industriel 1O Monieteur Industriel era um famoso jornal proteccionista.? O que dirão os discípulos do Sr. M.F. Chamans, que calculou com precisão minuciosa, quanto o comércio ganharia com a destruição de Paris, baseado no número de casas que teriam que ser reconstruídas. Lamento perturbar estes cálculos engenhosos, tanto quanto o seu espírito foi introduzido na nossa legislação; mas eu imploro-lhe que comece os cálculos de novo, considerando e contabilizando aquilo que é invisível e colocando-o lado a lado com aquilo que é visível.

O leitor deverá ter o cuidado de prestar atenção que não existem apenas duas, mas três pessoas nesta pequena história que eu submeti a sua atenção.

Uma delas, é o Sr. James B., que representa o consumidor, empobrecido, por um acto de destruição, ao usufruto de apenas uma janela, em vez de uma janela e um par de sapatos.

Outra, sob o título de vidraceiro, representa o produtor, cujo negócio beneficia do acidente.

A terceira pessoa é o sapateiro (ou outro comerciante), cujo negócio é prejudicado na mesma medida em que o vidraceiro é beneficiado pela mesmo acidente.

É a precisamente terceira pessoa que é mantida na sombra, e que, personificando aquilo que é invisível, é um elemento crucial na equação. É ele que nos demonstra quão absurdo é considerar que se pode lucrar de um acto de destruição. É ele que nos ensina rapidamente que não é menos absurdo apresentar uma restrição como algo lucrativo, uma vez que uma restrição, não passa de uma destruição parcial. Portanto, se o leitor for à raiz de todos os argumentos que são apresentados a favor, tudo o que encontrará será uma variação desta pergunta: “O que seria dos os vidraceiros, se os vidros das janelas nunca se partissem?”.

Sobre a Tradução

Este texto foi publicado originalmente em inglês no site do mises.org e está disponível neste link. A tradução é da responsabilidade de João Cortez.

Nota do Tradutor

Um mau economista, apenas considera os efeitos visíveis, no curto prazo e num pequeno grupo da população. Um bom economista, considera os efeitos visíveis e invisíveis, no longo prazo e em toda a população.

A falácia da janela partida é das falácias mais enraizadas e mais prevalecentes nas análises e políticas económicas dos dias de hoje. Ela está presente por exemplo na ideia de que a Segunda Guerra Mundial pôs fim à Grande Depressão nos Estados Unidos; ou que a Alemanha e o Japão beneficiaram com a sua destruição também na Segunda Guerra Mundial; ou ainda nos programas de abate a veículos. Esta falácia esta presente noutra forma mais subtil, quando o Estado decide apoiar financeiramente determinado grupo – a expensas de toda a população restante; ou nas obras e investimentos públicos que visam criar empregos, que são financiadas através de impostos (que é rendimento retirado aos cidadãos) que serviriam para criar igualmente emprego noutras àreas em que os cidadãos acabariam por gastar o dinheiro – estes empregos, como não chegam a ser criados, permanecerão invisíveis.

Este texto é retirado da  obra de é original de Frédéric Bastiat  “Aquilo que é Visível, e aquilo que é Invisível”. A falácia da janela partida foi recuperada e popularizada por Henry Hazlitt (1894 – 1993) no seu livro “Economia Numa Lição” (“Economics In One Lesson”).

Notas

[references]

Referências   [ + ]

1. O Monieteur Industriel era um famoso jornal proteccionista.
About the author

Frédéric Bastiat

Frederic Bastiat (1801–1850), economista, legislador e escritor francês, reclamou a urgência material e moral da liberdade. A defesa instransigente do mercado livre enquanto fonte de "harmonia económica" entre os indivíduos estaria assegurada se o estado se limitasse a funções de protecção da vida, liberdade e propriedade privada dos cidadãos "e fazer reinar entre todos a Justiça" (in A LEI).

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