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Cliché #11 – Os Ricos Têm a Obrigação de Retribuir

Para uma sociedade que tem alimentado, vestido, cuidado, informado, entretido e enriquecido mais pessoas ao nível mais alto do que qualquer outra na história do planeta, há claramente muita culpabilização sem fundamento na América.

20140626_mrcrabsdetailManifestações desta culpa abundam. O exemplo que irrita-me mais é aquele que normalmente ouvimos de filantropos bem-intencionados que adornam a sua caridade com este pequeno tesouro: “Eu quer devolver algo.” Soa sempre a um pedido de desculpa por terem tido sucesso.

Traduzido, esta afirmação significa algo como: “Acumulei alguma riqueza ao longo dos anos. Não interessa como é que eu consegui, mas sinto-me culpado por tê-lo feito. Há algo de errado em ter mais do que outro, mas não me peças para explicar como ou porquê, é apenas um sentimento vago e inquietante da minha parte. Porque tenho algo, sinto-me na obrigação de ter menos. Sinto-me bem entregá-lo porque ao fazê-lo expurgo-me do pecado de o ter. Agora sou um bom rapaz, certo?”

Foi aparente para mim o quão profundamente enraizado este mindset se tornou quando visitei a campa do John D. Rockefeller no Cemitério de Lakeview em Cleveland a alguns anos. O texto numa placa comemorativa da vida deste empresário memorável tinha implícito que doar a maioria da sua fortuna foi uma façanha tão digna como construir uma grande empresa internacional, a Standard Oil. Os livros de história através das quais a maioria das crianças aprende hoje em dia vão ainda mais longe. Criticam frequentemente pessoas como Rockefeller pela riqueza que criaram e pela busca do lucro, ou interesse pessoal, que desempenhou um papel na criação dessa mesma riqueza, enquanto louvam-nos por desfazerem-se do dinheiro.

Mais do que uma vez, filantropos têm contribuído para a minha organização explicando que estavam a “devolver algo”. O que queriam dizer era que ao contribuírem, estavam a pagar algumas dívidas para com a sociedade. Acontece que, com algumas exceções, estes filantropos não tinham feito nada de errado.

Claro que ganharam dinheiro durante a sua vida, mas não roubaram-no. Assumiram riscos que não precisavam de assumir. Investiram o seu próprio dinheiro ou aquele que conseguiram via empréstimos e que mais tarde ressarciram com juros. Criaram empregos, pagaram salários de mercado a pessoas dispostos a trabalhar gerando assim meios de subsistência para milhares de famílias. Inventaram coisas que antes não existiam, algumas das quais salvaram vidas e tornaram-nos mais saudáveis. Criaram produtos e forneceram serviços, pelo qual pediram e receberam aos preços de mercado.

Eles tiveram clientes interessados e ansiosos que regressavam sucessivamente . Tiveram acionistas a quem tiveram que oferecer um retorno favorável. Também tiveram concorrentes e por isso tiveram que manter-se atentos sobe pena de perderem a corrida. Não utilizaram a força para chegarem onde chegaram; contaram com trocas livres e contratos voluntários. Pagaram as suas contas e dívidas na totalidade e todos os anos doaram parte dos seus lucros a muitas instituições de caridade na sua comunidade sem a existência de qualquer obrigatoriedade legal. Nenhum que eu conheça teve que cumprir qualquer tempo de prisão pelo que quer que fosse.

Então como é que alguém pode somar isto tudo e mesmo assim sentir-se culpado? Suspeito que se são genuinamente culpados do que quer que seja, é permitir serem intimidados pelos derrotados e invejosos do mundo, aqueles que estão envolvidos no negócio da redistribuição ou porque não sabem como criar o que quer que seja ou porque escolhem a saída fácil. Apenas tiram o que querem ou pagam aos políticos para o fazerem por eles.

Ou como alguns no clero que pensam que a riqueza não é criada mas apenas “coletada,” os redistribucionistas impõem um sentimento de culpa nas pessoas até entregarem o seu lucro – apesar do 10º Mandamento contra a cobiça. Certamente, pessoas de fé têm a obrigação de apoiarem a sua igreja, mesquita ou sinagoga, mas este é outro assunto e por isso não é tema aqui.

Uma pessoa que quebre um contrato deve alguma coisa, mas apenas à outra parte do acordo. Se roubares a propriedade de outra pessoa tens a responsabilidade de a devolveres a quem roubaste e não à sociedade. Aquelas obrigações são reais e advêm de um acordo voluntário num primeiro momento ou de um ato imoral de roubo no segundo. O negócio de “devolver algo” simplesmente porque o ganhaste equivale a fabricar obrigações místicas inexistentes. Vira o próprio conceito de “dívida” de cabeça para baixo. “Devolver” significa que nunca pertenceu-te, mas a criação de riqueza através da iniciativa privada e troca voluntária não envolve a expropriação da propriedade legitimamente pertencente a alguém.

Caso contrário como poderia ser? Em que medida racional é que uma pessoa de sucesso num mercado livre, sem dívidas e obrigações no sentido tradicional do termo, deve mais a uma entidade nebulosa chamada de “sociedade”? Se o empresário X ganha mil milhões de USD e o empresário Y ganha dois mil milhões de USD, faria sentido dizer que Y deve “devolver” o dobro de X? Se sim, quem deve decidir a quem ele deve? É evidente que, a noção de “devolver algo” apenas porque o tens está assente em conhecimento dúbio.

Indivíduos de sucesso que ganham a sua riqueza através de trocas livres e pacificas podem escolher dar parte, mas não teriam menos moralidade ou menos dívida para com a sociedade se não dessem nada. Desvaloriza o poderoso impulso caridoso que praticamente todos sentem para sugerir que caridade é equivalente ao serviço da dívida ou que deve ser motivado por qualquer grau de culpa ou autoflagelação.

Uma lista parcial daqueles que realmente têm a obrigação de devolver algo incluiria assaltantes de bancos, meliantes, golpistas, caloteiros e políticos que se apropriam de algo que não lhes pertence de forma indevida ou menos lícita. Estes têm de facto boas razões para sentirem culpa, porque são culpados.

No entanto, se és um exemplar de uma sociedade livre e empreendedora, alguém que ganhou e economizou o que tem e que não fez nada para prejudicar a vida, propriedade ou direitos dos outros, és no geral uma espécie diferente. Quando dás, deves fazê-lo devido à satisfação pessoal que obténs ao apoiares causas dignas, não porque precisas de salvar uma consciência culpada.

Lawrence W. Reed

Presidente

Fundação para a Educação Económica

Texto tirado e traduzido a partir de:

# 11 – Rich People Have an Obligation to Give Back

About the author

Michael Silva

Licenciado em Gestão e Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas e Pós Graduado em Marketing pelo IPAM. Interesso-me pelos conceitos inerentes ao Liberalismo Clássico: respeito pela liberdade e responsabilidade individual, Estado reduzido, paz e mercados livres. Colaborador do Instituto Ludwig von Mises Portugal, trabalhando essencialmente no Departamento de Traduções.