O País dos Fachos

O português é aquele tipo que questiona o porquê de determinado fulano – ou entidade – não pagar taxas ou licenças e nunca o porquê dessas mesmas taxas ou licenças existirem. Vivemos numa luta de classes distópica em que grupos de interesses se tentam, diariamente, enterrar uns aos outros. Os fumadores que não bebem estão-se marimbando para as taxas sobre o álcool, quem bebe e não fuma aplaude as taxas sobre o fumo. Os taxistas querem ver a Uber pelas costas mas ai de quem taxe os turistas que a clientela voa – e não é para cá. Não nos entendemos. Com o mal do outro convivemos nós bem, num egoísmo político que só não foi teorizado nem tema de nenhum tratado porque a parvoíce não se estuda – ou pelo menos não deveria ser merecedora de perdas de tempo.

Vivemos num país maioritariamente católico mas não nos amamos uns aos outros, longe disso, quanto mais respeitar a vontade do próximo. Somos chicos-espertos socorrendo-nos do nosso chico-espertismo para entalar o próximo, que tomamos sempre como um chico-esperto a tentar entalar-nos com o seu chico espertismo. É a stasização social, somos uns desconfiados por natureza. Se o tipo é rico é porque roubou, se é político é porque tem padrinhos – e se não roubou vai roubar – se tem trabalho é porque tem cunha. O sucesso dos outros é uma coisa chata, que se vai tornando progressivamente mais chata quando ameaça atrapalhar aquilo que definimos como sucesso, que muitas das vezes é apenas um status quo porreiro que não dá muito trabalho e em que a nota lá vai entrando.

O que presentemente ocorre com a Uber em relação aos Táxis é o que se vem passando com as bancas de cerveja e as garrafeiras em relação aos bares, com os hostels em relação aos hotéis, com as tascas típicas em relação a alguns restaurantes, com as low-cost em relação à TAP, com os produtos da China e com outros infindáveis casos. É a treta da certificação e dos padrões de qualidade. É a história do cumprimento exímio da lei, da protecção do consumidor, da monitorização e do raio que nos parta. Somos um país de pequenos fascistas. A concorrência é uma coisa chata. Mas mesmo fora dela existe sempre um iluminado a comentar numa notícia – de uma proibição, de uma multa, de uma regulação – dando vivas ao progresso, vilipendiando os criminosos que se lembraram de saldar o stock do supermercado a metade do preço, os mal-feitores que deixaram o molho das bifanas a apurar para lá do tido como adequado, dos sacanas daquela roulote que não tinha WC, dos energúmenos que têm quartos nos hostels com não sei quantas camas – e que manipulam os tipos que, curiosamente, os enchem seja a época alta ou baixa.

Se para pagar impostos um tipo quase precisa de uma pós-graduação em contabilidade, a burocracia é uma coisa aborrecida, medonha, quase kafkiana. Mas se o vizinho do lado precisa de meia dúzia de requerimentos para pintar as paredes ou mudar o portão do quintal acha-se muito bem. Era o que mais faltava o indivíduo fazer o que lhe apetece com a própria casa. Ninguém estranha que os licenciamentos e as taxas com que nos sobrecarregam, além de em quantidades pornográficas, levem por vezes o dobro do tempo e do custo em relação a outros países tidos como desenvolvidos. Mas há sempre um energúmeno a bater palmas a uma lei aparvalhada porque “em Inglaterra é assim”, “na Suécia não faziam eles isto”.

Somos uns parolos, uns pacóvios, uns provincianos, vivendo constantemente do estrangeiro, importando de lá as propostas mais estatizantes, proibitivas e avessas à liberdade e ao crescimento mas fugindo a sete pés se alguém nos fala em trabalhar como os alemães ou liberalizar o estado social como os suecos ou legalizar a prostituição como esses e os holandeses. Como o Miguel Esteves Cardoso dizia e bem, somos todos uns pequenos ditadores, desencantando propostas de lei a cada conversa de café, desencantando uma maneira de controlar melhor isto ou mudar aquilo. “Isto devia ser proibido” é provavelmente uma frase dita pelo menos uma vez por dia, por cada português, isto se se tratar de um tipo moderado.

Portugal caminha na direcção do abismo a passo de lebre, sem eira nem beira. A mentalidade acima descrita, entranhada na nossa cultura, é mandatária do pesado Estado, controleiro e assaltante, que diariamente nos pisa os calos, os pés, a carteira e a vida. Enquanto nos acharmos no direito de intervir no espaço do próximo, através do Estado – de outra forma seria uma agressão – estamos a legitimar que este mesmo Estado intervenha no nosso. A história provou que os precedentes que abrimos são perigosos e a última década vem mostrando que cada vez menos existem limites para a esfera interventiva dos governos. É bom recordar o que o economista Roberto Campos escreveu sobre o Brasil, que vive muitos dos problemas lusitanos. É que de facto, em Portugal, “a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor.

About the author

Ricardo Lima

Presidente do Instituto Ludwig von Mises Portugal. Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais. Frenquentou o MIB em International Business da Lincoln Business School. Fez um ano em Economia e Gestão do Ambiente da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Mestrando de Finanças na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. Blogger n'O Insurgente. Envie-lhe um e-mail para: ricardo.lima@mises.org.pt

O País dos Fachos | O Insurgente - 2015-04-30

[…] O País dos Fachos por Ricardo Lima: O português é aquele tipo que questiona o porquê de determinado fulano – ou entidade – não pagar taxas ou licenças e nunca o porquê dessas mesmas taxas ou licenças existirem. Vivemos numa luta de classes distópica em que grupos de interesses se tentam, diariamente, enterrar uns aos outros. Os fumadores que não bebem estão-se marimbando para as taxas sobre o álcool, quem bebe e não fuma aplaude as taxas sobre o fumo. Os taxistas querem ver a Uber pelas costas mas ai de quem taxe os turistas que a clientela voa – e não é para cá. Não nos entendemos. Com o mal do outro convivemos nós bem .. […]

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