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Cliché #18 – “A Humanidade Pode Ser Melhor Compreendida num Contexto Coletivo”

alexey-kljatov-photography-snowflakes1Existem dois prismas básicos através dos quais podemos ver, estudar e assim propor à sociedade: individualismo e coletivismo. Estas visões são como a noite e dia e criam uma grande divisão nas ciências sociais porque a perspetiva a partir da qual se vê o mundo orientará o seu caminho intelectual.

Defensores de liberdade pessoal e económica posicionam-se habitualmente no campo do individualismo enquanto, aqueles que consideram-se “progressistas” estão firmemente no campo do coletivismo.

Eu penso nisto como a diferença entre uma tempestade de neve e flocos de neve. Um coletivista vê a humanidade como uma tempestade de neve. Um individualista também vê a tempestade, mas é imediatamente atraído pela singularidade de cada floco de neve que a compõe. Esta distinção está carregada de profundas implicações.

Não existem tempestades de neve iguais mas um facto ainda mais extraordinário é que não existem flocos de neve iguais – pelo menos é a conclusão que resultou de investigações sobre o tema. Wilson Alwyn Bentley, de Jericho Vermont, um dos primeiros fotógrafos de flocos de neve conhecidos, desenvolveu um processo em 1885 para capturá-los quando caiam sobe veludo negro antes de derreterem. Tirou fotografias a cerca de 5000 flocos e nunca encontrou dois idênticos – nem nunca ninguém encontrou. Cientistas acreditam que mudanças de humidade, temperatura e outras condições predominantes presentes à medida que flocos se formam e caiem tornam bastante improvável que possam surgir dois idênticos (ironicamente Bentley morreu de pneumonia em 1931 depois de andar 6 milhas numa nevasca. Lição: um floco pode ser inofensivo mas muitos poderão ser fatais).

Se pensar nisto suficientemente é possível que nunca voltará a ver uma tempestade de neve (ou a humanidade) da mesma forma.

Anne Bradley é vice-presidente de iniciativas económicas no Instituto para a Fé, Trabalho e Economia. Num recente seminário organizado pelo FEE (Foundation for Economic Education) em Naples, Florida ela explicou este tema da seguinte forma:

Quando, à distância, olhamos para uma tempestade de neve, os flocos parecem indistinguíveis de pequenos pontos brancos polvilhando o céu, misturando-se um com o outro. No entanto, quando vislumbramos de perto, conseguimos perceber o quão belo, intricado e dissemelhante cada floco de neve realmente é. Isto ajuda quando pensamos nos humanos. À distância, numa grande multidão as pessoas podem parecer todas iguais e é verdade que temos muitas características em comum. No entanto, ao inspecionar com maior detalhe percebemos a verdadeira natureza do que analisamos. Percebemos que cada indivíduo tem uma serie de habilidades, talentos, ambições, traços e gostos únicos e incomparáveis.

Esta singularidade é crítica quando tomamos decisões políticas e propomos receitas para a sociedade no seu todo; apesar de parecermos todos iguais em certos aspetos, somos na verdade muito diferentes uns dos outros e qualquer semelhança só poderá ter uma consideração secundária.

O falecido Roger J. Williams, autor do livro Tu És Extraordinário, Livre e Único: A Base Biológica da Liberdade Individual (como de vários artigos no The Freeman) foi um conhecido professor de bioquímica na Universidade de Texas em Austin. Ele argumentou que as impressões digitais são apenas uma das infindáveis características biológicas ímpares de cada ser humano, incluindo os contornos e funcionamento do nosso cérebro, recetores neuronais e sistema circulatório.

Estes factos oferecem bases biológicas para as muitas diferenças entre pessoas. Einstein, notou ele, foi um estudante de matemática muito precoce mas ele aprendeu a falar tão lentamente que os seus pais ficaram muito preocupados. Williams resumiu muito bem há mais de 40 anos quando observou, “A nossa individualidade é tão inevitável quanto a nossa humanidade. Se pretendemos planear para as pessoas, devemos planear para indivíduos, porque na verdade as pessoas são compostas pelo indivíduo.”

Devemos reconhecer que apenas indivíduos planeiam. Quando coletivistas “planeiam” (por exemplo a “Nação planeia ir para a guerra”) resume-se sempre a pessoas específicas planeando a vida de outros indivíduos. A única resposta boa para a questão coletivista, “O que é que a América come ao pequeno-almoço?” é a seguinte: “Nada. No entanto, cerca de 315 milhões de indivíduos americanos costumam comer pequeno-almoço. Muitos por vezes não tomam e em qualquer dia, existem 315 milhões de respostas distintas para esta questão.”

O pensamento coletivista não é muito profundo ou meticuloso. Coletivistas veem o mundo como o Sr. Magoo o viu – como uma grande névoa. No entanto, ao contrário do Sr. Magoo, não são engraçados. Homogeneízam pessoas numa liquidificadora comunal, sacrificando as características distintas que nos fazem quem somos. A mentalidade coletivista “somos uma aldeia” atribui pensamentos e opiniões a grupos amorfos, quando na verdade apenas pessoas em particular possuem pensamentos e opiniões.

Coletivistas inventam esquemas de tamanho único para todos e preocupam-se pouco como estes esquemas podem afetar os variados planos de pessoas reais. Um mero floco de neve tem pouca importância para um coletivista porque raramente para para o observar; de qualquer forma, implicitamente o coletivista ignora os flocos porque são tantos com que brincar. Coletivistas ficam normalmente relutantes em celebrar os sucessos dos indivíduos porque acreditam, como disse o presidente Obama, “não criaste nada.”

Ao retirar indivíduos da equação retiramos a humanidade do que quer estejamos a promover. O que nunca farias ao teu vizinho, cara a cara, sancionarias se fosse perpetrado por uma entidade coletiva sem rosto apesar das declaradas “boas intenções”. O facto inevitável é que não somos substituíveis. Componentes de uma máquina são mas pessoas inequivocamente não são.

Se a este ponto está perdido, então veja o filme de animação de 1998 da DreamWorks – Antz. O cenário é uma colónia de formigas em que se espera que todas as formigas se comportem como um aglomerado obediente. Isto é muito conveniente para as chefias das formigas tiranas, na qual cada um possui uma personalidade única. O mindset coletivista debilitante é abalado por uma única formiga que pensa pela sua própria cabeça e que acaba por salvar a colónia através da sua iniciativa individual.

Karl Marx era um coletivista. A Madre Teresa era uma individualista. Um lidou com grandes aglomerados de pessoas. A outra tratou-os como indivíduos. As lições nesta clara dicotomia são fundamentais e corre-se um grande risco caso sejam ignoradas.

Então o que é que a humanidade parece-te: uma tempestade ou flocos de neve?

Se a tua resposta é a última, então compreendes o que filósofo e historiador Isaiah Berlin quis dizer quando escreveu em 1958, “Ao manipular o Homem, impelindo-o em direção a objetivos que tu – o reformador social – vê, mas que ele não, é negar a sua essência humana, tratando-o como objeto sem desejos próprios e assim rebaixando-o.”

 

Lawrence W. Reed

Presidente do FEE

Texto tirado e traduzido a partir de:

#18 – “Humanity Can Be Best Understood in a Collective Context”

About the author

Michael Silva

Licenciado em Gestão e Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas e Pós Graduado em Marketing pelo IPAM. Interesso-me pelos conceitos inerentes ao Liberalismo Clássico: respeito pela liberdade e responsabilidade individual, Estado reduzido, paz e mercados livres. Colaborador do Instituto Ludwig von Mises Portugal, trabalhando essencialmente no Departamento de Traduções.