Quem Tem Medo Que a Gasolina Desça?

Finanças e Investimentos #2

Mais de metade do que pagamos pela gasolina são impostos… Dói.

Andam há meses a dizer-nos que o petróleo está mais barato, mas, cá no burgo, continuamos a pagar um balúrdio pela gasolina e gasóleo. E estamos fartos de não perceber porque é que esses combustíveis são tão caros.

 

Fonte: Galp Energia

Metade do que pagamos ao abastecer é imposto (IVA + ISP) / Fonte: Galp Energia

 

O principal culpado já há muito tempo foi identificado pelos economistas: é o Estado português. Ou não fosse Portugal o 7º vergonhoso classificado europeu ao nível dos impostos sobre os combustíveis – o que piorou com a recente Fiscalidade Verde, que nos deverá fazer subir pelo menos duas posições no ranking, igualando a Grécia.

Mas, apontada que está a principal causa do problema, há sempre espaço para outros raciocínios: e se o Presidente dos EUA também estiver a contribuir, indirectamente, para que a nossa factura mensal não diminua?

Pode soar-nos estranho, mas, parece que a esperança reside num grupo de norte-americanos, liderados pela Senadora Lisa Murkowski (do Alasca), que se prepara para enfrentar a Administração Obama com uma proposta de lei a ser entregue brevemente.

 

A senadora dos Republicanos propõe-se a terminar com a lei tirana oriunda de 1973

A senadora dos Republicanos propõe-se a terminar com uma lei tirana oriunda de 1973

 

Mas como é que Obama pode estar a manipular o mercado? E como é que isso nos afecta? Teremos de recuar à década de 70 para perceber.

 

O Choque Petrolífero dos anos 70

Tudo começou quando, em Outubro de 1973, a OPAEP (Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo) se recusou a vender petróleo aos EUA, como forma de protesto contra a intervenção americana na Guerra do Yom Kipur. Isso levou a uma diminuição súbita da quantidade de petróleo disponível para o mercado americano, o que trouxe uma subida demolidora dos preços por barril de crude.1Aquando do final do embargo comercial árabe, em Março de 1974, o preço por barril já havia subido de $3 para $12.

Para fazer frente a um mal, o congresso americano teve a brilhante ideia de avançar com um mal ainda pior: proibir a exportação do petróleo americano para, virtualmente, todos os países do mundo, com o famoso Energy Policy and Conservation Act (EPCA), de 1975. Após esse Act, uma empresa americana, para exportar petróleo dos EUA, passa a precisar de uma licença concedida pelo Governo. Ou seja: só exporta quem o Estado quiser que exporte!

O intuito era o de tornar os EUA auto-suficientes em relação ao consumo e produção de combustíveis, para impedir que o preço dos mesmos voltasse a ter subidas tão destrutivas como as de 1970. A história entretanto mostrou que o esforço foi em vão, com o Segundo Choque Petrolífero de 1979.

Hoje, o petróleo americano está mais barato do que os seus concorrentes (embora seja de qualidade superior). Isto, porque há um excesso de oferta global do petróleo americano, devido ao facto das petrolíferas dos EUA não conseguirem escoar toda a sua produção. Para tal acontecer, necessitariam de ter acesso ao mercado externo, já que o mercado interno provou ser insuficiente.

Mas, com os reservatórios de crude prestes a transbordar em várias regiões americanas, porque é que os EUA não reduzem as suas importações de petróleo para fazer frente a este excesso de oferta?

Curioso, é pensarmos que, mesmo com o petróleo americano mais barato do que os seus concorrentes, os EUA continuam a importar petróleo em quantidades abismais. Em 2014, cerca de 44% do crude processado nas refinarias dos EUA foi importado! Ora, isto deve-se a duas razões principais:

  • 1) O petróleo produzido nos EUA é leve e doce (como veremos à frente, duas características que fazem dele o melhor do mercado em termos de qualidade) e a maior parte das refinarias americanas estão desenhadas para processar petróleo mais pesado e menos doce, como aquele oriundo do Canadá ou da Venezuela.

 

  • 2) Outra razão prende-se com o facto do indicador bolsista do petróleo americano estar cotado apenas alguns dólares abaixo do indicador rival, logo é mais barato importar petróleo via mar, do que enviá-lo por comboio de um estado para outro, em território americano.

Da seguinte tabela se retira que o objectivo de longo prazo da EPCA 1975, de tornar os EUA autossustentáveis em assuntos energéticos, falhou:

Fonte: U.S. Energy Information Administration

Fonte: U.S. Energy Information Administration

 

Hoje, não faz qualquer sentido económico manter essa proibição imoral, inútil e ineficiente. Mas mesmo assim, Obama continua a defender a infundada tese (oriunda dos lobbys internos) de que o preço do petróleo americano subiria demasiado com a abertura de barreiras, e que tal seria mau para a economia americana (esquecendo os possíveis novos exportadores americanos que ganhariam com o fim da proibição). Mas já lá vamos.

Então e nós (consumidores portugueses)? Como ficaríamos, se os americanos passassem a exportar o seu petróleo de qualidade superior?

 

O crude americano e as consequências do fim da proibição

 

Um regresso dos Estados Unidos ao mercado mundial de petróleo resultaria numa descida do preço geral do crude, e por consequência, a uma descida nos preços exorbitantes que os portugueses pagam sempre que vão à bomba de gasolina para bastecer o carro. Mas para compreender esta situação (que esperamos estar a dias de terminar, caso Lisa Murkowski tenha sucesso), é importante que o leitor perceba como funciona o mercado do petróleo:

Existem vários tipos de crude – o petróleo dito “espesso”, aquele que ainda não foi refinado, e que as empresas de perfuração extraem directamente da terra – e alguns são melhores do que outros! Por exemplo, é mais fácil para os refinadores fazerem gasolina e gasóleo a partir do petróleo mais “doce”, ou seja, aquele que possui menos enxofre. O petróleo dito “mais leve” é também preferível ao “menos leve” por razões idênticas às já anteriores.

Por causa disto, os compradores e especuladores precisam de uma forma de avaliar o valor da commodity no que toca à sua qualidade e localização no mapa. É aí que surgem os indicadores, ou benchmarks.

Indicadores como o “Brent”, o “WTI” e o “Dubai” (ou “Oman”) servem para orientar os compradores e investidores. Quando algum refinador compra um contrato de Brent, ele tem conhecimento de quão bom é aquele petróleo, e de que parte do planeta ele vem!

 

Os principais indicadores do petróleo

 

Existem dezenas de indicadores bolsistas do crude, sendo que cada um deles representa o petróleo de uma dada parte específica da Terra. No entanto, o preço da maioria dos indicadores está vinculado a um destes três indicadores, chamados indicadores primários:

Brent Blend: é o indicador mais usado do mercado petrolífero, sendo que dois terços de todos os contractos de petróleo no mundo estão marcados em Brent. Este tipo de petróleo é proveniente do Mar do Norte, na Europa. O crude desta tipologia é doce e leve, sendo relativamente bom para fazer gasóleo e gasolina. Como é extraído em alto mar, torna-se também barato em termos de custos de transporte.

West Texas Intermediate (WTI): é sobre este petróleo que se fala neste artigo. O WTI refere-se a todo o petróleo extraído nos poços dos EUA, e enviado por oleodutos para o estado de Oklahoma. Actualmente é mais barato que o Brent, não por ser de pior qualidade, mas sim por haver um excesso da sua oferta (no mercado americano), entre outros motivos, graças à proibição das oil exports. Mesmo tendo este petróleo custos de transporte maiores (por estar “preso” a extrações em terra), é um produto muito leve e doce – na verdade, é o melhor que existe no mundo para fins de refinaria…

Dubai/Omã: é um petróleo mais pesado, menos doce, e por isso pior para ser refinado do que o Brent ou o WTI. Representa o conjunto de extrações petrolíferas oriundas do Dubai, Omã e Abu Dhabi; escusado será dizer que é menos transacionado do que os dois anteriores.

 

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O Brent domina em 2/3 do globo, enquanto que o WTI é um indicador forte nos EUA, sendo que o Dubai/Oman evidencia manter uma forte influência na Ásia.

 

Teríamos gasolina mais barata?

Quem alega que o levantamento da proibição às exportações americanas faria com que o preço do petróleo americano subisse (com o aumento da procura para o dito cujo petróleo), está a esquecer-se de que estamos no século XXI, com um mercado de petróleo globalmente aberto. Como tal, se por um lado haveria uma lógica interna de pressão de mercado para que o petróleo americano visse o seu preço aumentar (com o aumento da procura externa), dar-se-iam pressões muito maiores ao nível de comércio externo para que o preço do petróleo de um modo geral, descesse – principalmente o Brent, importado em massa pelos EUA. Brent esse, que representa 44% do petróleo processado em refinarias americanas!

Ao serem confrontados com um novo concorrente – WTI – o Brent e o Dubai/Omã ver-se-iam obrigados a sucumbir às leis da concorrência, e ajustar os seus preços ao recém-chegado novo player de mercado, descendo-os. Como aliás explicam os especialistas, que até já demonstraram que o regresso dos EUA à cena mundial, como exportadores pode vir a reduzir a voltatidade dos preços dos combustíveis para o consumidor final.

Há já uma série de relatórios de think tanks por todo o mundo, que concluem que a permissão das exportações do petróleo americano cortaria os preços da gasolina, pois diminuiria o preço do Brent em que esses mesmos preços se baseiam.

Quanto ao transporte, seria apenas uma questão de tempo até surgirem companhias de transporte náutico e aéreo que melhorassem as perspetivas deste mercado, “arrancando” o petróleo americano do solo e levando-o além fronteiras.

Nós por cá, para além de ganharmos em reduções de custo nos transportes, também teríamos acesso a uma nova matéria-prima: mais leve, mais “doce”, e por isso menos poluente para o nosso meio ambiente.

 

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Conclusão

Duas lições devem de ser retiradas daqui: 1) os portugueses e os restantes europeus (e até os americanos!) ganhariam com o levantamento da proibição, e 2) os governos continuam com o vício de escolher os vencedores e os vencidos no sistema capitalista, transformando-o num corporativismo desleal, desigual, injusto e inimigo dos mais pobres.

Com a proibição que dura desde 1975, só podem exportar crude as empresas escolhidas a dedo pelo governo dos Estados Unidos da América. É justamente isso que o EPCA refere nas suas linhas… E é bastante irónico… Não é?

De acordo com um estudo recente do Government Accountability Office, os Americanos poderiam vir a poupar até 8 cêntimos de dólar por cada galão de combustível comprado numa bomba de gasolina, com o fim da proibição.

Mais: de acordo com o estudo da IHS, acabar com a proibição criaria uma média de 394 mil novos postos de trabalho desde 2016 até 2030, e aumentaria anual dos americanos no valor de cerca de $390 até ao ano de 2018. E pelos vistos o povo americano até concorda comigo: é isso que a recente sondagem do FTI Consulting concluiu, com “69% dos registados a defender o fim da proibição da exportação de crude”.

Senhor presidente: já que o Estadão português não quer ajudar, baixe-nos lá o preço da gasolina, por favor. E eu nem sou americano…

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Referências   [ + ]

1. Aquando do final do embargo comercial árabe, em Março de 1974, o preço por barril já havia subido de $3 para $12.
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Guilherme Marques da Fonseca

Vice-presidente fundador do IMP. Economista, empreendedor e financeiro. Contacto: guilherme.fonseca@mises.org.pt