• Home  / 
  • Outros
  •  /  Cliché #20 – O Governo Pode Ser uma Alternativa Compassiva Perante a Crueldade do Mercado

Cliché #20 – O Governo Pode Ser uma Alternativa Compassiva Perante a Crueldade do Mercado

11703076_984556018278810_3208118479058815501_nEm todas as campanhas eleitorais, ouvimos a palavra “compaixão” milhares de vezes. Um dos partidos políticos, supostamente é compassivo enquanto o outro partido não. Grandes programas governamentais são provas de compaixão; reduzir a dimensão do Estado é um ato de uma enorme insensibilidade social. Ao utilizar incorretamente o termo como vantagem partidária, políticos e ideólogos deturpam o verdadeiro significado da palavra.

O facto é que alguma coisa que é carimbada como “compassiva” é apenas isso, e é bom para o mundo; mas muito do que é “compassivo” não o é, e só prejudica. Aquele tende a ser pessoal, enquanto que este coloca uma responsabilidade involuntária noutro.

Como Marvin Olasky indicou em 1994 no seu livro, A Tragédia da Compaixão Americana, a definição original de compaixão como descrita no dicionário inglês de Oxford é “sofrer juntamente com outro, participando nesse sofrimento.” A ênfase, como a própria palavra em si demonstra – “com”, que significa com, e “paixão”, do termo Latim “pati”, significa sofrer – envolvimento pessoal com os mais necessitados, sofrendo com eles e não apenas dando. Noah Webster, na edição do Dicionário Americano da Língua Inglesa de 1834, definiu compaixão de forma semelhante – “sofrer com o outro”.

No entanto, a forma como a maioria das pessoas utiliza o termo hoje é uma deturpação do seu sentido original. Hoje significa pouco mais do que, como Olasky disse, “um sentimento, ou emoção, quando as pessoas são movidas pelo sofrimento ou aflição de outro e pelo desejo de aliviá-lo.” Há uma enorme diferença entre estas duas definições: uma exige ação pessoal e a outra apenas um “ sentimento” tipicamente acompanhado por um pedido de auxílio – nomeadamente ao governo – para resolver o problema. Uma descreve um voluntário da Cruz Vermelha, enquanto o outro descreve um típico demagogo Progressista que dá pouco ou nada dos seus próprios recursos mas muito dos outros.

A verdade é que compaixão estatal não é igual a compaixão privada ou individual. Quando esperamos que o governo nos substitua para fazer o que nós devíamos fazer, esperamos o impossível e acabamos com o intolerável. Na realidade, não resolvemos problemas, apenas gerimo-los dispendiosamente e perpetuamente criando uma serie de novos pelo caminho.

Desde 1965, no início da chamada Guerra Contra a Pobreza, até 1994, as despesas totais com apoios sociais nos Estados Unidos foram de 5.4 trilliões de dollars. Em 1965, a despesa total com apoio social governamental representava 1% do total do PIB, mas em 1993 chegou aos 5.1% do PIB anual – superior ao máximo histórico atingido aquando da Grande Depressão. O nível de pobreza em 1994 era praticamente a mesma do que em 1965 e agora, passados 20 anos, até é superior. Foi aparente aquando da “reforma da Segurança Social” em 1996 que milhões  viviam vidas de dependência desmoralizante; famílias eram premiadas por se desintegrarem e o número de crianças nascidas fora do casamento atingiu níveis estratosféricos – factos terríveis que programas “compassivos” do governo criaram.

A vontade de gastar fundos estatais em programas de apoio não é prova que a pessoa é compassiva. O professor William B. Irvine da Universidade Estatal de Wright em Dayton, Ohio explicou uma vez: “Seria absurdo considerar que alguém que defenda o aumento do orçamento militar seja corajoso, ou que um defensor de programas desportivos esteja fisicamente em boa forma.” Da mesma forma que é possível um sedentário defender que o Estado deva financiar equipas desportivas, é possível para uma pessoa sem compaixão apoiar vários programas de apoio social; e reciprocamente, é possível uma pessoa compassiva opor-se a tais programas.

É um erro utilizar as crenças políticas pessoais como um teste de validação da sua compaixão. O Professor Irvine disse que se quer determinar o quão compassivo é um indivíduo, estás a perder o teu tempo se apenas perguntares em quem votou; em vez disso deves perguntar quais as contribuições caridosas e voluntariado que fez ultimamente. Também poderás perguntar como respondes perante as necessidades dos seus familiares, amigos e vizinhos.

Muitos dos mais acérrimos defensores políticos de um sistema de providência Estatal também são dos hipócritas mais falsos e egoístas. Enquanto conservadores e libertários geralmente contribuem generosamente do seu próprio bolso, organizações de caridade têm a sorte de receberem mais do que pequenos donativos por parte dos “progressistas” do mundo. Como prova, poderá consultar o livro de 2006 – Quem Realmente Preocupa-se? – do Arthur Brooks, quando lecionava na Universidade de Syracuse e que agora é presidente do American Enterprise Institute.

É importante notar que nem os progressistas doam para supostas instituições governamentais “compassivas” mais do que o obrigatório por lei. Não há nada de ilegal em passar um cheque e entrega-lo ao Departamento de Saúde e Serviços Sociais, mas os progressistas, quando procuram ajudar pessoalmente os outros, tendem a passar um cheque a instituições privadas.

Verdadeira compaixão é o baluarte de famílias e comunidades unidas, de liberdade e independência, enquanto falsa compaixão no segundo caso é perigosa e com resultados duvidosos. Verdadeira compaixão é quando pessoas ajudam pessoas a partir de um sentimento genuíno de preocupação e fraternidade. Verdadeira compaixão provem do coração, não do Estado. Verdadeira compaixão é profundamente pessoal, não um cheque entregue a uma burocracia distante.

Numa entrevista televisiva em Nassau, Bahamas, em Novembro 2012, o apresentador Wendall Jones perguntou-me, “Sr. Reed, o que pensa sobre o Bom Samaritano do Novo Testamento? Não demonstra que o governo deve ajudar pessoas? A minha resposta: “Wendall, o que do Bom Samaritano bom, foi o facto de ter ajudado pessoalmente o homem ferido na estrada. Se tivesse apenas dito ao senhor desamparado para ligar ao seu congressista, ninguém até hoje o chamaria mais do que um inútil.”

“E sobre o Cristianismo em si?” Jones depois perguntou. “Não é favorável à redistribuição como uma forma compassiva para ajudar os pobres?” Felizmente, conheço bem a Bíblia e o Cristianismo. A minha resposta: “Wendall, o 8.º Mandamento diz “Não roubarás”. Não diz, “Não roubarás mas apenas se o outro não tiver mais do que tu ou se não estiveres convencido que ele gastá-lo-á da melhor forma ou ainda se não conseguires encontrar um político que o tire em seu nome.” Mais concretamente, um novo livro sobre o assunto, Para os Mais Desafortunados: Resposta Bíblica para a Pobreza, responde a esta questão de uma forma detalhada.

Os Progressistas estão tipicamente tão convencidos da sua superioridade moral que tendem a ser muito intolerantes perante um bom contra-argumento.

O mercado é normalmente repudiado por ser um local frio, impessoal e egoísta onde a compaixão ocupa um lugar secundário perante o interesse pessoal. No entanto, essa perspetiva ignora alguns factos importantes:

  1. O mercado é o que produz a riqueza que a compaixão permite doar ou partilhar
  2. Historicamente, as sociedades mais livres são as mais compassivas no sentido mais genuíno
  3. Ser um funcionário estatal que gasta o dinheiro dos outros não o torna mais compassivo do que o resto da sociedade
  4. A “compaixão” do governo é tipicamente desviado para a compra de votos e programas que perpetuam os mesmos problemas que deveriam resolver. As noticias recordam-nos diariamente que não há limite para a “crueldade” do governo – tal como – ganância, desperdício, fraud e ineficiência.

Na próxima vez que ouvires a palavra “compaixão”, interroga a pessoa procurando perceber se ela sabe exatamente do que está a falar – ou pelo menos determinar se é compassivo com os seus próprios recursos.

Lawrence W. Reed

Presidente

Fundação para a Educação Económica

Texto tirado e traduzido a partir de:

#20 – Government Can Be a Compassionate Alternative to the Harshness of the Marketplace

About the author

Michael Silva

Licenciado em Gestão e Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas e Pós Graduado em Marketing pelo IPAM. Interesso-me pelos conceitos inerentes ao Liberalismo Clássico: respeito pela liberdade e responsabilidade individual, Estado reduzido, paz e mercados livres. Colaborador do Instituto Ludwig von Mises Portugal, trabalhando essencialmente no Departamento de Traduções.