O Revolucionário de Ténis Lacoste

Eu nunca entendi muito bem essa história do esquerdista bom vivant. É daquelas coisas que sempre me fizeram confusão, que não combinam, como comer pipocas com sal ou usar cinto marrom com sapatos pretos ou aquele velhinho que não gosta de pretos a passear beira mar com a neta mulata. Para mim o esquerdista bom vivant é uma aberração, um pária da sociedade política. Não que eu não goste de tragar uma pinga da boa ou banquetear como gente grande, bom relógio no pulso e vestido para casar. Gosto de tudo do bom, vinho, camarão… Só não gosto de queijo, excepto na pizza e afins. Mas isso sou eu, pequeno burguês estrangeirado com laivos de neoliberalismo como ditam as más-línguas do lado da canhotice. E ninguém acha estranho. Estranho é ver aquela vanguarda do proletariado, aquele desbocado que incorpora Lenine sempre que separa os lábios, convertido ao discreto charme da burguesia. É como imaginar Salazar, de pólo e bermuda, a acender um do bom ao som de um disco de John Lennon. Ou o Silas Malafaia no candomblé, jingando pelo corpo todo aos orixás. Ou o Papa Francisco a receber uma cruz com foice e martelo das mãos de um ditador comunista – bem, esqueçam esta última.

Isto tudo para concluir a estranheza do maoista de rolex. Gente que afronta diariamente o modo de vida do mundo ocidental, com os seus supostos vícios, luxos e as suas injustiças, mas não dispensa um bom sapato de boutique italiana ou um voo de primeira classe para um show no Olympia em Paris. Mas no fundo temos que ser justos. É bem difícil, até para um qualquer líder estudantil revolucionário, eterno filho arrependido de pais burgueses, que jura a pés juntos que tem sangue negro de um antepassado cabrito, não sofrer do contágio desta fútil cultura de massas materialista que o capitalismo, a nova ordem mundial e os quatro cavaleiros do marketing apocalíptico enfiam diariamente pela sua goela abaixo, não ? Eu acho que não. E mais que isso, vamos lá rever essa coisa de materialismo ocidental do século XX ou o raio que o parta.

Este conceito, assim como o de neoliberalismo, surgiu de um conjuntos de mentes iluminadas, cujo estatuto na sociedade permitia passarem dia e noite escrevendo barbaridades em linguagem cuidada e complexa, sem que essa sua inutilidade para com o universo se concretizasse num futuro de mendigagem. Sociólogos, filósofos, artistas e uns quantos desgraçados que por incapacidade de criar riqueza deram em economistas. Pessoal avant garde. Gente importante, muito letrada. Uma turma sofisticadíssima, daquela que entende de vinhos – e eu não sei porra de vinhos – e disserta sobre a origem da nova tendência da moda ou da literatura como S. Paulo dissertava sobre o final dos tempos. Malta do bem que encalhou em cismar que a humanidade, outrora dona do seu nariz e pouco namoradeira de grandes consumos, foi persuadida por um bando de malfeitores endinheirados e políticos saídos de uma BD da Silver Age do Super-Homem, a comprar tudo que de bom o fatídico mundo pós-revolução industrial tem para oferecer.

Numa teoria explanada com uma lógica argumentativa muito bem arquitectada, depois incorporada em roteiros e romances escritos entre jactos privados e festas em LA, cantada por poetas subversivos em shows de preço irrisório, plasmada nos manifestos progressistas de estudantes de universidades particulares. Mas o leitor acha que a argumentação é tudo? Já experimentou ver um episódio de Ancient Aliens no History Chanel? Sempre que assisto um fico convencido que o meu tetra tetra tetra avô veio de Marte para fazer malandragens aqui no burgo. Provando que até o mais imbecil dos seres pensantes pode, se dedicar algum esforço e tiver o mínimo talento para a demagogia, pregar o ridículo e ser aplaudido de volta.

Tudo isto como se do nada, a natureza humana se tivesse invertido. Como se os nobres medievais não desfrutassem de jóias e coroas. Como se as tribos africanas não tivessem vendido os seus pares a troco de uns tecidos bonitos. O materialismo e o consumismo sempre estiveram presentes. Como se a extravagância das sucessivas modas francesas do século XVIII ficasse a dever algo à actualidade. Simplesmente estes foram convivendo com uma escassez de produtos, por um lado e de uma miséria geral, por outro, deixando estes luxos para as classes mais abastadas. Com a revolução industrial do século XIX e a explosão nas condições de vida da população mundial no século seguinte, a lógica materialista manteve-se e alastrou-se às classes mais carenciadas, não (apenas) por mérito das escolas de marketing e da rádio/tv, mas por um aumento, tanto da produção – que se massificou – como do poder de compra. Tudo obra do malfadado capitalismo que possibilitou que se jogue PS4 na favela ou no presídio e que qualquer pé rapado tenha umas Nike nos pés.

E como tudo na vida tem um lado negro, com tanto de miséria material que nos ofereceu o capitalismo, veio com ele um tanto de miséria intelectual, na figura destes Ché Guevaras de ténis Lacoste que se pavoneiam pela academia e pelos meios de comunicação em massa. Algures, por entre o calor acolhedor das brasas do inferno, Gramsci e Lenine observam, sorridentes, o desfile dos idiotas úteis que se infiltraram nos círculos culturais do ocidente, alcançando uma influência quase hegemónica no seio destes. Observam como passam, impávidas e serenas, as contradições no discurso, no exemplo, no modo de ser e estar. E nós não somos melhores se o silêncio for o nosso escudo e a indiferença a nossa arma. Partidos como o BE, o Syriza, o Podemos ou o PT sobrevivem da facilidade como os seus argumentos são apelativos e pela leveza com que as massas esquecem a vida que os seus dirigentes e afiliados levam. Pouco a pouco já se vão inteirando da hipocrisia da esquerda caviar e a nossa tarefa é ajudar nesse processo. E, caro leitor, se encontrar no pub local um Chico Buarque ou um Russel Brand não se esqueça de cobrar um Whiskey do bom. Eles podem.

About the author

Ricardo Lima

Presidente do Instituto Ludwig von Mises Portugal. Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais. Frenquentou o MIB em International Business da Lincoln Business School. Fez um ano em Economia e Gestão do Ambiente da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Mestrando de Finanças na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. Blogger n'O Insurgente. Envie-lhe um e-mail para: ricardo.lima@mises.org.pt