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Cliché #22 – “No Mercado, Acordos Voluntários “Usam” Pessoas”

ME_115_FreeMarketsEntre as mais comuns críticas é que acordos voluntários são imorais porque tratam pessoas como bens ou mercadorias, em vez de indivíduos. Por outras palavras, acordos no mercado são mal vistos porque os participantes “usam” pessoas no processo. Como descrito pelo economista Paul Heyne, “tal sistema parece violar as nossas convicções morais mais profundas que nada é mais valioso do que indivíduos e que cada pessoa deve ser tratada como um fim e nunca como meio para um fim.”

A ironia é que aqueles que compreendem e respeitam acordos no mercado fazem-no precisamente porque “nada é mais valioso do que o individuo.” Ecoo o entendimento que o fundador do FEE, Leonard Reed teve de que “um individualista… vê a sociedade como um desfecho, um resultado, um efeito, uma recapitulação incidental perante o que é valorizado acima de tudo, nomeadamente cada ser humano individual e distinto.” No entanto, porque é que críticas anti-individualistas têm persistido durante tanto tempo, apesar da contradição? Em parte, graças à retórica enganadora que altera o significado de “uso” a meio do argumento.

Há uma condenação generalizada sobre “usar” pessoas. No entanto, usar tem diferentes significados. “Usar” pode significar “utilizar” ou “empregar”, sem implicar prejudicar outros. É o que significa quando dizemos que alguém utiliza um martelo. Também é o que ocorre quando pessoas fornecem voluntariamente os seus serviços para avançar os objetivos de outras pessoas no mercado. Em contraste, “usar” pode também significar “abusar” ou “prejudicar”, particularmente em sequência de fraude ou uso da força. É o que significa quando dizemos que “fingiste preocupar-te comigo mas estavas apenas a usar-me.”

O primeiro significado é consistente quer com a não imposição de danos nos outros quer com o ato de agir em beneficio dos outros (tal como em acordos aceites mutuamente no mercado, nos quais indivíduos não participariam de outra forma); o segundo significado requer que outros sejam prejudicados e trocando a meio o significado do primeiro para o segundo provoca uma ilusão lógica.

Algumas pessoas podem ser enganadas afirmando, “Usas os outros no mercado; usar pessoas prejudica-os.” No entanto, esta afirmação é muito menos provável se clarificar a que “uso” é que refere. “Utilizaste os serviços prestados voluntariamente pelos outros, por isso prejudicaste-os” convencerá poucos. Má utilização de linguagem, complementado com um raciocínio incoerente pode transformar a realidade de benefício mútuo que se verifica em transações não coercivas no mercado numa ficção da teoria da exploração.

Há outro problema lógico que ocorre quando defendemos que devemos tratar pessoas como fins em si mesmas e nunca como meiosquote-Milton-Friedman-the-most-important-single-central-fact-about-56379. Não é uma opção entre ambas, porque não são mutuamente exclusivas. Pessoas são tanto fins, como meios através das quais outros avançam em direção aos seus fins.

O que outros oferecem-nos em todas as transações de acordo mutuo são meios para atingir os nossos fins. No entanto, tratar as ações ou serviços humanos como meios para atingir fins não os desvaloriza como indivíduos; é apenas inerente aos benefícios mútuos. Falhar nessa distinção, condenando tais arranjos como o uso de pessoas de uma forma antiética aproxima-se da afirmação contraditória de que nada que seja mutuamente benéfica é permitido. Pelo contrário, devemos louvar em vez de criticar um sistema que consegue encaixar os planos e pretensões frequentemente incompatíveis de multidões de diferentes indivíduos para expandirem o que realmente pode ser alcançado.

Para além disso, quando pessoas escolhem livremente os seus acordos, cada um respeita outros como importantes fins em si mesmos de uma forma importante que está ausente quando outros ditam o que é permitido. Permite-lhes liberdade, baseado na sua propriedade, de forma a escolher a melhor forma de usar os meios que têm a sua disposição.

Acordos mutuamente voluntários são aqueles em que os participantes acreditam melhor fazerem avançar as suas capacidades sem violar as capacidades dos outros. Nada é detraído da capacidade de perseguir os fins que cada um escolhe; as possibilidades para ambos são expandidas. Como podemos melhor avançar os fins dos outros permitindo-os escolher como utilizar os seus meios atuais da forma que considerarem mais produtivos? Como Philip Wiksteede escreveu há mais de um século no Senso Comum da Politica Económica, relações económicas voluntárias facilitam “as limitações… dos seus próprios recursos… através do próprio ato que trás uma correspondente libertação, aqueles com quem negoceiam…. limitando o espaço para acusações intrinsecamente sórdidas e diminuídas.”

O hipotético ideal de tratar sempre as pessoas como objetos benevolentes em vez de utilizar os seus serviços via trocas mutuamente benéficas é sempre irrealizável. Como Wicksteed indicou, “A limitação dos nossos poderes impediria que nos interessássemos ativamente pelos negócios dos outros.” Em qualquer sociedade maior do que uma família, não conseguimos saber o suficiente para organizar relações baseadas na boa vontade.

Considere o mero número de transações e os respetivos autores envolvidos nos acordos económicos. Como demonstrado pelo “Eu, Lápis” do Read, um vasto número de indivíduos estão envolvidos até em pequenos produtos, muito menos complexos, como automóveis. Em tais circunstâncias, as alternativas não coordenam relações através de trocas (outro nome para persuasão) ou através da caridade, mas coordenam relações através de trocas de forma pior porque excedem os nossos conhecimentos e capacidades.

Heyne resumiu bem:

Quando preços, em vez de interesse pelo bem-estar do outro, coordenam transações sociais, cooperação social torna-se mais fácil e extensiva. Os que pretendem forçar que todas as transações sociais sejam pessoais não percebem que muito do que tomam como certo seria impossível no mundo dos seus ideais… ignoram a incrível complexidade do sistema de cooperação social através das quais nos alimentamos, vestimos, habitamos, aquecemos, curamos, transportamos, confortamos, entretemos, desafiamos, inspiramos e educamos.

Acusações de que acordos no mercado envolvem o “uso” imoral dos outros são correntes mas também de mérito questionável. Transformam retoricamente o uso dos outros em seu detrimento imaginário. Tratam o assunto como uma escolha entre tratar outros como um meio ou fim, quando na verdade trata-se de honrar e dignificar outros como fins em si mesmos. Escolherem como melhor conseguir os seus objetivos conduze-os a fornecer voluntariamente os meios para fazerem avançar o fim dos outros. Implementam um padrão de tratar sempre as pessoas como objetos de benevolência em vez de utilizarem os seus serviços através de trocas mutuamente benéficas, quando tentar fazê-lo destruiria muitas formas de cooperação social que acordos voluntários produziram tão bem e dos quais dependemos diariamente.

No entanto, pensando cuidadosamente, sem argumentos enganadores ou manipuladores somos levados a conclusões diametralmente opostos. Se aceitarmos a premissa que indivíduos e o seu desenvolvimento são os nossos fins últimos, os arranjos voluntários que evoluem são, como apontou Friedrich Hayek, uma das maiores criações da sociedade, não o seu flagelo.

Gary M. Galles

Professor de Economia

Universidade de Pepperdine

Texto tirado e traduzido a partir de:

#22 – “Voluntary, Market-Based Arrangements ‘Use’ People”

 

About the author

Michael Silva

Licenciado em Gestão e Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas e Pós Graduado em Marketing pelo IPAM. Interesso-me pelos conceitos inerentes ao Liberalismo Clássico: respeito pela liberdade e responsabilidade individual, Estado reduzido, paz e mercados livres. Colaborador do Instituto Ludwig von Mises Portugal, trabalhando essencialmente no Departamento de Traduções.