Veritas Naturae

No capitalismo o mais ganancioso dos homens é obrigado a servir ao próximo e a saciar necessidades alheias (dos seus clientes). Isto, se quiser obter vantagem pessoal. Tal obrigação provém da condição das relações voluntárias e do total respeito à propriedade privada – ambas as condições absolutamente necessárias para que esse sistema capitalista exista.

No coletivismo não existe nenhum incentivo para que líderes supremos do planeamento central sejam forçados a ter interesse altruísta e abdiquem do seu interesse próprio em prol do coletivo. Uma vez que os métodos de coerção estejam implantados, o que impede o poder e influência do – chamemos-lhe direktor – de servirem a si mesmo? Na condição de gestor do alheio o seu interesse próprio estará sempre em conflito com o interesse coletivo. A menos que seja do seu interesse próprio servir aos outros. Mas se assim for não reside aí outra contradição? Já lá vamos…

Outro problema é o cálculo económico: o agente capitalista terá os mecanismos de lucro e prejuízo para ter sempre uma informação de feedback da sua capacidade de atender aos clientes. Por meio desses mecanismos o mercado garante a alocação de recursos às empreitadas que melhor satisfazem o próximo. No coletivismo, mesmo admitindo total altruísmo divino ao direktor, a informação necessária de feedback é inexistente. Não chega só ao direktor ser altruísta… Para o coletivismo funcionar o direktor tem de ser, na pior das hipóteses, alguém puramente altruísta e completamente desinteressado no seu interesse próprio; bem como ser omnipotente em todas as infinitas variáveis económicas, relativas às infinitas opções pessoais de cada um dos outros constituintes do coletivo. Todavia, pode o direktor entender que é do interesse comum promover a igualdade. Assim, no coletivismo, a pessoa do direktor, tem ao mesmo tempo que: ter ciência sobre todas as diferentes variáveis intimas que fazem do ser humano um indivíduo; e desconsiderar todas as ações que promovem o bem estar individual, em favor de todas as que produzem o melhor outcome coletivo.

E porque é que alguém que toma como sua missão na vida a subida à posição de poder de direktor pode ao mesmo tempo ser altruísta? Não existe aí, uma ambição pessoal? Na melhor das hipóteses existe uma ambição pessoal de servir os outros. O altruísmo mais honesto não é também ele uma forma de egoísmo? Paradoxal não é?

O coletivismo nega e rouba a natureza humana ao mesmo tempo que concede a alguns exemplares da espécie características divinas. A bitola que o coletivismo usa para avaliar o coletivo tem de ser completamente diferente daquela que usa para avaliar o direktor. O coletivista espera o pior dos indivíduos que constituem o coletivismo, retirando-lhes a sua humanidade através da violação da liberdade individual, e negligenciando a sua capacidade de entenderem o que é melhor para cada um; enquanto espera o melhor do direktor, atribuindo-lhe características divinas de quem sabe o que é melhor para todos.

in rerum natura, para todas as condições e efeitos, o coletivismo é uma visão divina da natureza humana sempre a que se refere ao direktor e profundamente pessimista no que concerne aos indivíduos – negando-a no seu direito humano a estes últimos. Um qualquer coletivista sempre entenderá que deveria ser ele o direktor.

Em nome do que há de melhor em vocês, não sacrifiquem este mundo àqueles que são o que há de pior nele. Em nome dos valores que os mantêm vivos, não deixem que a sua visão do homem seja distorcida pelo que há de feio, covarde, irracional naqueles que jamais chegaram a merecer o título de homens. Não esqueçam que o que caracteriza o homem é a postura ereta, a mente intransigente, a capacidade de percorrer estradas infinitas. Não deixem que se apague o seu fogo insubstitível, fagulha por fagulha, nos pântanos do desespero do ‘mais ou menos’, do ‘não é bem isso’, do ‘ainda não’, do ‘de jeito nenhum’. Não deixem morrer o herói que vive em suas almas, solidário e frustrado por nunca ter conseguido atingir a vida merecida. Examinem a sua estrada e a natureza da sua luta. O mundo que vocês desejavam pode ser conquistado: ele existe, é real, é possível, é seu.
– John Galt – em Atlas Shrugged por Ayn Rand.

PS: a contradição é ainda mais absurda quando ao coletivo é dada a capacidade de eleger democraticamente o direktor: os mesmos que são considerados inaptos a procurarem a sua própria felicidade são considerados também eles divinos no momento eleitoral. Nesse contexto o “optimismo” divino, que o coletivista não depositara anteriormente no individuo, muda por breves momentos.

About the author

César Serradas

Português a viver no Brasil. Mestrado em Engenharia Mecânica especializado em produção e manutenção de equipamento industrial. Produção académica com publicações internacionais na área de Finanças/Valuation. Libertário anarcocapitalista.