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De como a Moeda desaparece no actual Sistema Monetário

Esta é a tradução de um artigo de Frank Shostak intitulado How Money Disappears in a Fractional-Reserve Money System. O artigo original pode ser consultado aqui.


 

A maioria dos experts considera que a expansão maciça de moeda por parte do banco central dos Estados Unidos durante a crise de 2008 salvou os EUA e o mundo de uma nova Grande Depressão. A este respeito, o chairman da Reserva Federal, Ben Bernanke, é visto como o homem que salvou o mundo. Por sua vez, Bernanke dedica as suas acções aos escritos do professor Milton Friedman, que atribuiu à Reserva Federal as culpas da Grande Depressão dos anos trinta, por não ter impedido que a disponibilidade de moeda caísse mais de trinta por cento.

Uma análise mais cuidadosa, no entanto, mostrará que não é um colapso na disponibilidade de moeda que provoca a recessão económica. Pelo contrário, é a anterior expansão monetária que degrada a quantidade de fundos reais disponível, o que por sua vez causa a depressão.

Desenvolver a economia requer tempo e poupanças

Essencialmente, a quantidade de fundos reais é a quantidade de bens de consumo disponível numa economia, para que a produção futura possa ser sustentada. No mais básico dos exemplos: um homem sozinho numa ilha é capaz de colher vinte e cinco maçãs numa hora. Com a ajuda de um utensílio, ele será capaz de aumentar a sua produtividade para cinquenta maçãs por hora. No entanto, construir o instrumento necessário (ou seja, adicionar uma fase produtiva) demora tempo.

Durante o tempo em que está ocupado a fabricar o utensílio, o homem não terá possibilidade de apanhar nenhuma maçã. Assim, para que possa ter a sua ferramenta, o náufrago terá primeiro que encontrar maçãs suficientes para que se possa sustentar durante a produção. A sua acumulação de fundos reais é o seu sustento durante esse período – a quantidade de maçãs que poupou para o seu objectivo.

O tamanho dessa acumulação determina, no limite, se ele consiguirá, ou não, produzir um utensílio mais sofisticado. Se for necessário um ano para construir a sua ferramenta e o indivíduo apenas tiver poupado maçãs que o sustentem durante um mês, isso significa que o utensílio não será produzido – o nosso personagem não conseguirá aumentar a sua produtividade.

O cenário da ilha complica-se com a introdução de múltiplos indivíduos que realizam trocas entre si, por meio de moeda. A essência, porém, mantém-se: no limite, o tamanho da acumulação de fundos colocará um travão na implementação de meios produtivos mais sofisticados.

Quando os bancos criam a ilusão de maior riqueza

O problema dá-se quando o sistema bancário faz com que a acumulação de fundos reais disponível aparente ser maior do que realmente é. Quando um banco central expande o stock de moeda, os fundos reais disponíveis não aumentam. Pelo contrário, a expansão leva ao consumo de bens que não é precedido de produção. A expansão leva a uma redução dos meios de subsistência.

Enquanto o fundo de poupanças continuar a expandir-se, políticas monetárias acomodativas criarão a impressão de que a actividade económica está a ser estimulada. Que, de facto, esse não é o caso torna-se aparente assim que o fundo começar a estagnar ou mesmo a diminuir. Assim que isto acontecer, a economia entrará na trajectória descendente. Nem a expansão de moeda mais agressiva conseguirá reverter essa tendência (pois, na essência, dinheiro não são maçãs).

A introdução de moeda e empréstimos na nossa análise não alterará o facto de que o cerne da questão se trata sempre da quantidade de fundos acumulados. Quando um indivíduo empresta dinheiro, o que ele na verdade empresta à sua contra-parte são os bens que ele não consumiu (dinheiro, no fundo, é uma reivindicação de bens). Assim, crédito significa apenas que bens não consumidos são emprestados por parte de um indivíduo produtivo a um outro, na condição de serem retribuídos com produção futura.

A existência de um banco central e de banca com reservas ditas fraccionárias permite aos bancos comerciais gerar crédito que não é representado, na realidade, por fundos reais (isto é, é crédito ‘criado do nada’).

Assim que o crédito ‘a partir do nada’ é gerado, são criadas actividades que o livre mercado não aprovaria. Ou seja, estas actividades estarão a consumir e não a produzir riqueza real. Enquanto os fundos se forem expandindo e os bancos estiverem desejosos de criar mais crédito, várias actividades ‘artificiais’ continuarão a prosperar.

Sempre que a criação extensiva de crédito ‘do nada’ elevar o ritmo de consumo de riqueza para além do ritmo de produção da mesma, a acumulação de fundos será danificada.

Consequentemente, a performance de várias actividades começa a deteriorar e o crédito mal parado dos bancos começa a aumentar. Em resposta a isso, os bancos começarão a travar a criação de empréstimos e isso detonará o declínio do stock de moeda.

Será que toda a travagem na criação de crédito é causa de uma redução no stock de moeda?

Por exemplo, o Pedro coloca 1000€ num depósito a prazo por três meses, no banco X. Por sua vez, o banco empresta os 1000€ ao João por três meses. Na data de vencimento, o João devolve os 1000€ ao banco, mais juros, e este, depois de deduzir as suas comissões, devolve os 1000€ originais mais juros ao Pedro.

O que temos aqui é que o Pedro empresta (isto é, abdica, por um prazo de três meses) 1000€. Ele transfere os 1,000€ para o João, através da intermediação do banco X. Na data de vencimento o João devolve o dinheiro ao banco X, que o devolve ao Pedro. Observe que neste caso o dinheiro existente é movido do Pedro para o João e de volta para o Pedro via intermediação do banco X. O empréstimo é totalmente coberto pelos 1,000€ neste caso. Obviamente, estes 1000€ não desaparecerão quando o empréstimo se vencer.

Porque encolhe a disponibilidade de moeda

Porém, as coisas são completamente diferentes quando o banco X empresta dinheiro ‘do nada’. Como funciona neste caso? Por exemplo, para satisfazer as suas necessidades de moeda, o Pedro mantém algum dinheiro disponível no bolso, bem como 1000€ num depósito à ordem no banco X. Ao colocar os 1000€ num depósito à ordem, o Pedro mantém o seu total direito a esse dinheiro. Agora, o banco tenta safar-se e tira 100€ depositados pelo Pedro e empresta-os ao João. Como resultado disso, temos agora 1100€ suportados por apenas 1000€ propriamente ditos. Resumidamente, a disponibilidade de dinheiro aumentou em 100€. Observe que estes 100€ emprestados não possuem um credor original, visto terem sido criados ‘do nada’ pelo banco X. Na data de vencimento, o João paga os 100€ de volta ao banco, e o dinheiro desaparece.

Obviamente, se o banco continuamente renovar os seus empréstimos ‘criados do nada’, o stock de moeda não cairá. Atente que apenas o crédito que não é suportado por dinheiro propriamente dito pode desaparecer ‘de volta para o nada’, o que por sua vez causa o encolhimento do stock de moeda.

Por outras palavras, a existência de banca dita fraccionária (banca que cria reivindicações simultâneas para a mesma moeda propriamente dita) é o principal instrumento no que toca ao desaparecimento de dinheiro. Porém, não é a causa do desaparecimento de moeda propriamente dita.

Bancos emprestam menos à medida que a qualidade dos tomadores de crédito se degrada

Tem que existir uma razão para esta paragem súbita de crédito por parte dos bancos. A principal explicação é a severa erosão da riqueza real que torna muito mais difícil encontrar clientes de qualidade aceitável. Por seu turno, isto significa que a ‘deflação monetária’ se deve a uma inflação prévia que erodiu a acumulação real de riqueza.

Daqui se conclui que a queda no stock de moeda é apenas um sintoma. A queda no stock de moeda revela os danos causados pela inflação monetária sem que, no entanto, essa mesma queda tenha alguma coisa que ver com os referidos danos.

Contrariamente ao que Friedman e os seus seguidores (entre eles Bernanke) proclamam, não é a diminuição na disponibilidade de moeda e a consequente queda dos preços que ‘pesa’ sobre os devedores. É o facto de que existe menos riqueza. A queda no stock de moeda, que foi criada ‘do nada’, apenas coloca as coisas numa perspectiva mais adequada. Adicionalmente, em resultado da diminuição da moeda, várias actividades que brotaram às costas da anterior expansão agora atravessam tempos complicados.

São precisamente essas actividades que não geram riqueza real que acabam por ter mais dificuldades em servir a sua dívida, visto que essas actividades nunca foram propriamente sustentadas por verdadeiros criadores de riqueza. (Dinheiro ‘criado do nada’ desencadeia uma troca do ‘nada por algo’ – a transferência de riqueza real dos geradores de riqueza para actividades artificiais). Com a queda do dinheiro ‘criado do nada’, o seu sustento é cortado.

Assim, ao contrário da visão popularmente sacralizada, uma queda na disponibilidade de moeda (isto é, de moeda ‘criada do nada’) é precisamente o que necessitamos para que se volte a desencadear a acumulação de fundos reais e a revitalização da economia.

Imprimir dinheiro apenas inflingirá mais danos e, como tal, nunca deverá ser considerado um método de ajudar a economia. Para além disso, mesmo que os bancos centrais tenham sucesso ao evitar que a quantidade de moeda disponível caia, isso não impedirá a recessão se os fundos reais estiverem a ser deteriorados.

About the author

Pedro Almeida Jorge

Licenciado em Economia pela Nova SBE. Consultor. Contacto: linkedin.com/in/pedroalmeidajorge