• Home  / 
  • Outros
  •  /  O PARTIDO LIBERAL – possível?

O PARTIDO LIBERAL – possível?

Partido Liberal

OPORTUNIDADE E NECESSIDADE – O PARTIDO LIBERAL

Durante esta semana, no círculo liberal português, houve um tema em destaque: a criação de um Partido Liberal. Alguns disseram que o melhor era esquecer, porque não estamos preparados, e que o melhor é os liberais filiarem-se no PSD e CDS. Esta “infiltração” tem-se revelado inútil… primeiro, porque os liberais passam para a outra equipa (como este caso); segundo, porque há disciplina de voto nesses partidos. Todo o movimento liberal – Instituto Mises Portugal, Blasfémias, O Insurgente – deve prosseguir na minha opinião até haver partido – e depois disso também claro. Todos têm um papel, mais teórico ou mais prático, mais educativo ou mais crítico, mas todos vão crescendo, sobretudo nestes tempos recentes, e por isso todos são importantes. Ora, para mudar o jogo convém jogá-lo. É simples.

Sou a favor de um partido liberal, sim. Se gostaria que o partido tivesse a palavra “partido” no nome? Não sei, parece que agora é moda, e com sucesso, não usar essa palavra. Mas digo já LIBERAL. Algumas pessoas disseram que nos deveríamos apresentar com a palavra neoliberal. Primeiro, eu nem sei bem o que isso significa. Segundo, demonstra uma falta de conhecimento brutal da opinião geral da população – basta ver as caixas de comentários das notícias no facebook. Neoliberal é uma palavra queimada, é a causa de todos os desastres. Liberal não está em coisa alguma relacionado com isso na cabeça das pessoas. Não estou a dizer que caso haja um partido a palavra “Liberal” tem de estar presente, só estou a dizer que esta palavra é a melhor que temos para associar às nossas ideias. Mas, isto é apenas marketing.

Sou também a favor de um partido que esteja associado aos grupos de informação/educação já acima citados, porque tudo isto depende da cultura. Não sou a favor de esperar que aconteça, do fatalismo, do criar desculpas, de colocar as culpas no passado – como ontem referi num grupo, tivemos um século de liberalismo francês, também podemos ter um século de liberalismo oriundo do clássico, mas também não digo que se faz do dia para a noite obviamente. No entanto, considero que sou alguém com espírito empreendedor e o que faz um empreendedor? Descobre uma oportunidade e aproveita. E acho que realmente há uma oportunidade dada a instabilidade política do país. O país está partido em esquerda e centro direita, mas a maioria não é esquerda nem direita. São apenas pessoas que não gostam de socialistas e comunistas e por isso dizem mal deles, sem que com isso estejam a defender o PSD e são apenas pessoas que criticam o PSD, sem que isso implique que gostem imenso do PS. O factor novidade (a diferença) pode ser o factor chave. Nós não podemos querer ser um CDS que é a segunda escolha de uma grande parte dos eleitores do PSD. O BE soube roubar votos ao PS, nós podemos fazer o mesmo à (ex)PAF e aproveitar a abstenção. A oportunidade neste caso está ligada à necessidade: as pessoas estão fartas do despesismo, fartas de incompetência, fartas dos morosos processos burocráticos, fartas de pessoas que defendem igualdade mas só para o que convém, fartas de impostos que só acabam em mais dívida, fartos de hipotecar o seu futuro (e da sua família) enquanto vêem situações ridículas de despesa do estado. Temos é de nos distanciar claramente do bloco central, “dos do costume”, de modo a captar os insatisfeitos que votam num porque não gostam de outro, os insatisfeitos que votam num porque é o mal menor e os insatisfeitos que não votam – que eu saiba ainda são muitos.

 

É DIFÍCIL? SIM

Um partido implica um colectivo, algo difícil para quem vê o individualismo como chave para o progresso do “colectivo” – se é que isso existe. No entanto, todos acreditamos no deixar fazer, na liberdade, nos direitos negativos, na acção voluntária com propósito. Os grupos já citados, sobretudo o IMP e O Insurgente, os quais deram um grande salto em termos de seguidores, provam, a um nível mais pequeno, que, apesar das diferenças, nos podemos unir quando temos uma meta em comum: acabar com esta fantochada do socialismo/social democracia despesista que reside nas entranhas deste país. Isto não implica termos o mesmo objectivo para a sociedade. Isto é pelo lado negativo, tal como nós gostamos! Apenas implica defendermos o que não queremos para o país ou, se quiserem, o que não queremos para a nossa família (a nossa sociedade não é bem assente no indivíduo, é mais na família).

Um partido implica cedências do indivíduo claro, mas é um compromisso voluntário: “Eu sacrifico isto e isto, porque sei que não seria razoável implementar o que pretendo num curto espaço de tempo e porque sei que nem todos concordam”. No outro dia ouvi algo muito importante e que por vezes como estamos no flow nem notamos… Nós discutimos por detalhes! Num país socialista, cuja Constituição é a das poucas do mundo que tem a palavra socialismo na mesma, a par de países super desenvolvidos como Síria e Sri Lanka, nós não deveríamos ter dificuldades em chegar a um consenso que impedisse esta deterioração contínua do país.

Na minha opinião, teria de ser um partido sem disciplina de voto, por hierarquia, mas que funcionasse mais por “projectos” e não por tarefas/funções. Cada “equipa” teria um projecto, o qual consistiria em mostrar uma ideia essencial ao público (formas é outra discussão), como por exemplo: a excessiva despesa pública, a necessidade de descentralização do poder, os problemas do salário mínimo, os elevados impostos, os entraves à criação de empresas e emprego, etc. Todos estes “projectos” são pontos em que todos concordamos e devem ser exemplos das nossas bandeiras mais gerais:

-Mais liberdade;

-Menos Estado, Mais Indivíduo;

-Menos Despesa, Menos impostos;

-Mais competitividade, Mais investimento;

-Menos Burocracia, Mais empreendedorismo;

-Mais (m)PME, Menos Clientelismo (com Grandes grupos económicos e sindicatos).

 

E se for preciso aliar isto a situações mais populistas como dizer que não vamos gastar 300 mil euros em faqueiros que seja. Mas isto dos “projectos” e das “bandeiras gerais” é apenas uma proposta. Agora critiquem-me por não apresentar aqui um programa detalhado. É verdade, não falo do banco central e da moeda, por exemplo – algo crítico até porque influencia de forma decisiva as políticas que gostaríamos de ver adoptadas. E porque é que não apresento aqui um programa detalhado? Porque não precisamos dum, pelo menos por agora. Todos somos realistas o suficiente para sabermos que mesmo que fosse criado um partido o mesmo não iria chegar ao poder imediatamente. Isto permite que tenhamos um programa assente em temas em que todos concordamos, os temas mais gerais, mais anti-estatistas, e isso pode ser uma vantagem, porque é o que faz falta às pessoas: um programa curto, poucas páginas, e simples, pouco técnico. Quem não conseguir chegar a acordos, quem não queira ceder, que apoie de outros modos. Caso o partido venha a existir será certamente, para essa pessoa que não quis ceder, um mal menor muito muito (muito mesmo) menor do que o mal menor em que costumamos votar ou em que a grande parte de nós costuma votar.

 

CULTURA, DIFUSÃO, CARISMA SÃO ESSENCIAIS… MAS NÃO SÃO TUDO

Há quem ache, incluindo eu nalgumas situações, que estamos verdes. Houve até quem desse o exemplo do Brasil como modelo a seguir. Ora, o Brasil é um óptimo exemplo! Começaram com vários think tanks há alguns anos e páginas na internet e agora uma grande parte da população está a mudar de mentalidade e já existe um partido liberal, o (Partido) Novo. O maior impacto foi provocado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), literalmente um “grupo de putos liberais”. Ora, não me parece que um “bando de miúdos” (apenas uns garotos que conseguiram convocar manifestações com milhões de pessoas, irrelevante portanto) sejam o exemplo do líder carismático que foi sendo formado e que foi entrando na cabeça das pessoas ao longo de vários anos ao aparecer regularmente nos meios de comunicação. O MBL prova que este “perfil necessário” que foi defendido durante esta semana por várias pessoas nem sempre é necessário. Prova também que os liberais têm de se saber adaptar. Não é a traduzir livros de 200 páginas ou a ter uma outra pessoa a falar na TV – apesar desta última ajudar – que vamos convencer alguém. Os livros servem para quem já está convencido como nós. Temos de apostar na Net: nas redes sociais, nos vídeos – com pessoas e com bonecos animados (ao estilo da Learn Liberty, mas mais amador), quem sabe no streaming e quanto ao texto? Só artigos. É um tempo novo, é um tempo em que não há tempo, as pessoas querem coisas simples e rápidas. Aliás, eu penso que a internet deveria ser até, numa fase posterior, um meio de intervenção dos cidadãos; começando o partido e os seus membros a usar esse método, para dar o exemplo, de modo a que os membros registados possam votar nas propostas que querem. É preciso demonstrar que não queremos a política por carreira, mostrar mais transparência, aproximar o poder de decisão do indivíduo. Isso sim cativa pessoas. Mas, tal como anteriormente, é só uma proposta.

Tal como é preciso financiamento para os projectos actuais de difusão do liberalismo e crítica ao socialismo que nos domina, também é preciso financiamento para este possível partido e para estas ideias. Isso sim exige um esforço conjunto! Caso não vos convença e não haja partido nos próximos anos, espero que se continue o trabalho que tem sido feito, sobretudo ao nível de educação – é necessário entrar mais nas universidades – e mudança cultural (mudar mentalidades, mas tendo presente o que já escrevi sobre a internet) e com mais meios, sobretudo financeiros. Temos Fernando Pessoa do nosso lado, querem melhor? Relembro que o período actual é a melhor oportunidade em décadas para se iniciar um partido liberal, dadas as presentes condições políticas – muito instáveis e peculiares.

Caso vos convença, não se deixem abater por aqueles que não vêem a ideia com bons olhos ou pelos que querem apanhar boleia. Mais importante, expliquem aos mesmos que eles podem ter um papel activo, não no seio do partido, visto não acharem boa ideia, mas ao nível de partilha de ideias com indecisos, sobretudo nas redes sociais, e na angariação de fundos. Falar sobre política no Facebook já é participar na vida política. Entretanto, somos cada vez mais liberais e defendo totalmente que se fale disto no Facebook, à vista de todos! É o que nos falta: sair da cave, sair dos grupos da net, aparecer (!), mostrar que existimos, sem receios, sem medos de rótulos. Estes dias foram uma prova não consciente do nosso poder, da capacidade das nossas ideias, da nossa existência. Eles que vejam, vejam à vontade e que temam, ao menos que incomodemos, enquanto não houver partido. Pela liberdade, por favor, usemos a que ainda nos resta.

 

 

Nota: Apenas ao autor devem ser imputadas as responsabilidades pelos pontos de vista deste artigo.

About the author

Bernardo Martinho Blanco

Licenciando no curso de Administração e Gestão de Empresas da CLSBE (UCP -Lisboa). Defende que todos temos o direito de fazermos o que quisermos com aquilo que é nosso, desde que respeitemos os direitos negativos dos outros. Contacto: https://pt.linkedin.com/in/bamab