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Por que ser Libertário? por Murray Rothbard

Porquê ser libertário? Com isso queremos dizer: o que significa isto tudo? Porque é que nos envolvemos num profundo e vitalício comprometimento ao princípio e ao objetivo da liberdade individual? Esse comprometimento, num mundo em grande parte não-livre, leva inevitavelmente a uma discordância e a uma alienação do status quo, uma alienação que, de maneira igualmente inevitável, impõe muitos sacrifícios de dinheiro e prestígio. Se a vida é curta e o momento da vitória está tão distante, por que passar por tudo isto?

Incrivelmente, encontramos entre o crescente número de libertários deste país muitos que têm um compromisso com os ideais libertários a partir de um ou outro ponto de vista extremamente pessoal. Muitos são atraídos irresistivelmente pela liberdade como um sistema intelectual ou como um objetivo estético; mas, para eles, a liberdade permanece sendo um jogo intelectual, totalmente divorciada do que consideram as atividades normais da sua vida. Outros são impelidos a permanecerem libertários somente por conta da antecipação de certos benefícios financeiros. Percebendo que o livre-mercado abriria enormes oportunidades para homens independentes e empreendedores, eles tornam-se e permanecem libertários apenas para encontrarem oportunidades de lucro. Embora seja verdade que as oportunidades de lucro fossem muito maiores e mais acessíveis num mercado livre, numa sociedade livre, considerar essa a principal motivação para ser um libertário só pode ser considerado grotesco. No caminho recorrentemente tortuoso, difícil e esgotante que deve ser percorrido antes de alcançarmos a liberdade, as oportunidades de lucro pessoal para o libertário serão muito mais negativas do que abundantes.

A consequência da estreita e míope visão, quer dos jogadores quer dos potenciais empreendedores, é que nenhum dos grupos tem o menor interesse no trabalho associado à construção de um movimento libertário. E, no entanto, é apenas através da construção de tal movimento que a liberdade poderá ser alcançada. Ideias, e especialmente ideias radicais, não são transmitidas ao mundo por si mesmas, como num vácuo; elas podem apenas ser transmitidas por pessoas, e, portanto, o desenvolvimento e a formação de tais pessoas — logo, de um “movimento” — torna-se numa tarefa primordial para o Libertário que tem um compromisso sério com seus objetivos.

Observando esses homens de visão estreita, temos que perceber também que o utilitarismo — a base comum dos economistas do mercado-livre — é insatisfatório para o desenvolvimento de um movimento libertário. Embora seja verdadeiro e valioso saber que um mercado-livre traria uma muito maior abundância e uma economia muito mais saudável para todos, tanto para os ricos quanto para os pobres, um problema crítico é saber se esse conhecimento é suficiente para atrair muitas pessoas para um comprometimento de vida à liberdade. Em síntese, quantas pessoas construiriam barricadas e suportariam os sacrifícios que a devoção consistente à liberdade exige apenas para que alguns porcento da população tenham melhores banheiras? As pessoas não prefeririam levar uma vida fácil e esquecer a percentagem de banheiras? Em última análise, então, a economia utilitária, embora indispensável no desenvolvimento da estrutura de pensamento e ação libertária, é quase tão insatisfatória como alicerce para o movimento como aqueles oportunistas que simplesmente procuram lucros fáceis.

É nossa opinião que o desenvolvimento de um movimento libertário e uma dedicação vitalícia à liberdade só podem ser baseados numa paixão pela Justiça. Aqui deve estar o motor da nossa motivação, a armadura que nos defenderá de todas as tempestades futuras, não a busca por dinheiro fácil, por um passatempo intelectual ou o frio cálculo de ganhos económicos. E, para ter uma paixão pela justiça, um indivíduo deve possuir uma teoria do que justiça e injustiça são – resumindo, um conjunto de princípios éticos de justiça e injustiça que não podem ser derivados do utilitarismo económico. É porque vemos o mundo transbordar de injustiça sobrepostas umas nas outras que somos impelidos a fazer tudo o que podemos para alcançar um mundo no qual estas e outras injustiças serão erradicadas. Outros objectivos radicais tradicionais —como a “abolição da pobreza” — são, em contraste com este, verdadeiramente utópicos, pois o homem não pode abolir a pobreza simplesmente através de sua vontade. A pobreza só pode ser abolida através da execução de certos factores económicos — nomeadamente o investimento da poupança em capital — que só pode ocorrer pela transformação da natureza por um longo período de tempo. Em suma, a vontade humana é aqui severamente limitada pelo funcionamento da — para usar um termo fora de moda, porém ainda válido — lei natural. Mas as injustiças são acções que são infligidas por um grupo de homens sobre outro; são precisamente acções de homens, cuja eliminação, portanto, está sujeita à instantânea vontade do Homem.

Analisemos um exemplo: a longa ocupação de séculos da Irlanda e a brutal opressão do povo irlandês pela Inglaterra. Agora, se, em 1900, tivéssemos observado o estado da Irlanda e tivéssemos considerado a pobreza do povo irlandês, teríamos que dizer: a pobreza poderia ser aliviada pela desocupação inglesa e pela eliminação dos monopólios, mas a eliminação total da pobreza na Irlanda, sob as melhores condições, levaria tempo e estaria sujeita ao funcionamento das leis económicas. Mas o objetivo de acabar com a opressão inglesa poderia ser alcançado pela acção instantânea da vontade dos homens: bastaria que os ingleses decidissem sair do país. O facto de que essas decisões não são instantâneas não é a questão; a questão é que o próprio facto de que isso não acontece instantaneamente é uma injustiça que foi deliberadamente imposta pelos perpetradores — neste caso, o governo inglês. No campo da justiça, a vontade do homem é tudo; os homens podem mover montanhas, se assim decidirem. A paixão pela justiça instantânea — em suma, uma paixão radical — não é, portanto, utópica, como seria o desejo da eliminação instantânea da pobreza ou a transformação instantânea de todos em pianistas clássicos. A justiça instantânea poderia ser alcançada se pessoas suficientes assim o desejassem.

Assim, uma verdadeira paixão pela justiça deve ser radical — isto é, ela deve pelo menos desejar alcançar seus objetivos radical e instantaneamente. Leonard E. Read, o presidente-fundador da Foundation for Economic Education, expressou este espírito radical muito apropriadamente quando escreveu o panfleto I’d Push the Button. O problema tinha a ver  com a rede de controle de preços e salários que era imposta à economia pela secretaria de administração de preços. A maior parte dos Liberais económicos estava a defender, tímida ou “realisticamente” uma ou outra forma de libertação gradual ou escalonada; naquele momento, o Sr. Read assumiu uma inequívoca e radical posição: “se houvesse um botão nesta tribuna”, ele começou seu discurso, “que acabasse com todos os controles de preços e salários, bastando ser pressionado, eu colocaria meu dedo nele e o carregaria!”1 O verdadeiro teste do espírito radical é o teste do botão: se pudéssemos carregar o botão para a abolição instantânea das injustas invasões da liberdade, nós o carregaríamos? Se não o fizéssemos, nós não nos poderíamos intitular Libertários, e a maioria de nós só faria isso se guiados principalmente por uma paixão pela justiça.

O genuíno Libertário é, em todos os sentidos da palavra, um “abolicionista”; ele, se pudesse, aboliria instantaneamente todas as invasões da liberdade, seja na forma da escravidão, para o qual o termo foi criado, seja na forma das várias outras instâncias de opressão estatal. Nas palavras de outro libertário, em relação a um caso similar, ele “faria bolhas no dedo de tanto carregar naquele botão!”. O Libertário deverá ser um” carregador de botões” e um abolicionista. Impelido pela justiça, ele não pode ser movido por apelos amorais utilitários de que a justiça não venha até que os criminosos sejam “compensados”. Assim, quando, no começo do século XIX, o grande movimento abolicionista surgiu, as vozes da moderação imediatamente surgiram dizendo que só seria justo abolir a escravidão se os senhores de escravos fossem compensados financeiramente por suas perdas. Ou seja, após séculos de opressão e exploração, os senhores de escravos ainda seriam recompensados com uma boa quantia tirada aos inocentes pagadores de impostos! O comentário mais apropriado em relação a essa proposta foi feito pelo radical Benjamin Pearson, que observou que “pensava que eram os escravos que deveriam ser compensados”; claramente, essa compensação só poderia vir dos próprios donos dos escravos.2

Antilibertários, e anti-radicais em geral, argumentam que tal “abolicionismo” é “irrealista”; ao argumentarem desta maneira, eles confundem o objetivo desejado com uma estimativa estratégica do provável resultado. Ao conceber o princípio, é da maior importância que não misturemos as estimativas estratégicas com a definição dos objetivos desejados. Primeiro, os objetivos devem ser formulados, o que, neste caso, seria a abolição instantânea da escravidão ou de qualquer outra opressão estatista que estejamos considerando. E nós devemos estabelecer esses objetivos sem considerar a probabilidade de alcançá-los. Os objectivos libertários são “realistas” no sentido de que poderiam ser alcançados se um número suficiente de pessoas concordasse que eles são desejáveis e que, se alcançados, trariam um mundo muito melhor. O “realismo” do objectivo só pode ser discutido a partir de uma crítica ao próprio objetivo, não da questão de como atingi-lo. Então, após termos decidido o objetivo, defrontamo-nos com a questão de como alcançá-lo o mais rápido possível, como construir um movimento para atingi-lo, etc. William Lloyd Garrison não estava sendo “irrealista” quando, nos anos 1830, levantou o glorioso estandarte da imediata emancipação dos escravos. O seu objectivo era o apropriado e o seu realismo estratégico vinha do facto de que ele não esperava que o seu objectivo fosse atingido rapidamente. Ou, como o próprio Garrison colocou:

Defendendo a imediata abolição com tanto empenho quanto possível, teremos no fim de contas, diabos!, uma abolição gradual. Nós nunca dissemos que a abolição seria derrubada de uma só vez; mas que ela deveria ser abolida, isso nós sempre afirmaremos.3

Na realidade, no domínio da estratégia, levantar a bandeira do princípio puro e radical é geralmente o meio mais rápido para atingir objetivos radicais. Pois se o objetivo puro nunca for trazido à tona, nunca se abrirá qualquer caminho para traçar o rumo até ele. A escravidão não seria nunca abolida se os abolicionistas não tivessem levantado a voz e defendido a abolição trinta anos antes que ela ocorresse; e, da forma que as coisas realmente aconteceram, a abolição foi virtualmente um golpe único, não foi gradual nem teve quaisquer compensações.4 Mas acima dos requerimentos da estratégia estão os mandamentos da justiça. No seu famoso editorial de abertura do The Liberator, no início de 1831, William Lloyd Garrison arrependeu-se de sua prévia adoção da doutrina da abolição gradual:

Aproveito esta oportunidade para fazer uma completa e inequívoca retratação e para, assim, publicamente pedir perdão a Deus, ao meu país e aos meus pobres irmãos escravos por ter externado um sentimento de tamanha timidez, injustiça e absurdo.

Ao ser censurado por conta da habitual severidade e do calor de sua linguagem, Garrison respondeu: “Eu preciso de estar a arder, pois tenho montanhas de gelo à minha frente para derreter”. É este espírito que deve ter o homem verdadeiramente dedicado à causa da liberdade.5

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Notas:

1 Leonard E. Read, I’d Push the Button (Nova York: Joseph D. McGuire, 1946), p. 3.

2 William D. Grampp, The Manchester School of Economics (Stanford, Calif.: Stanford University Press, 1960), p. 59.

3 Citado em William H. e Jane H. Pease, eds., The Antislavery Argument (Indianapolis: Robbs-Merrill, 1965), p. xxxv.

4 Na conclusão de uma brilhante crítica filosófica à acusação de “irrealismo” e a sua confusão do bom com o provável, o Professor Philbrook declara: “Apenas um tipo de defesa séria está disponível para um economista ou para qualquer outra pessoa: ele deve sustentar que a política é boa. O verdadeiro “realismo” é o mesmo a que os homens sempre chamaram de sabedoria: decidir o imediato à luz do fim.” Clarence Philbrook, “‘Realism’ in Policy Espousal”, American Economic Review (Dezembro, 1953): 859.

5 Para as citações de Garrison, veja Louis Ruchames, ed., The Abolitionists (Nova York: Capricorn Books, 1964), p. 31, e Fawn M. Brodie, “Who Defends the Abolitionist?” in Martin Duberman, ed., The Antislavery Vanguard (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1965), p. 67. O trabalho de Duberman é um armazém de material valioso, incluindo refutações do esforço comum daqueles comprometidos com o status quo que fazem análises psicológicas dos radicais em geral e dos abolicionistas em particular. Ver especialmente Martin Duberman, “The Northern Response to Slavery”, in idem, pp. 406-13.

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Tradução do capítulo 15 WHY BE LIBERTARIAN? 239 – 245 In EGALITARIANISM AS A REVOLT AGAINST NATURE AND OTHER ESSAYS  – SECOND EDITION by MURRAY N. ROTHBARD, Second Edition Copyright © 2000 by The Ludwig von Mises Institute. ISBN: 0-945466-23-4 (323 pp)

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Rodrigo Silva