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Porque é que o rendimento dos capitalistas é merecido?

Tradução de um sub-capítulo do livro Basic Economics de Thomas Sowell. Encontre-o aqui

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Embora fazer investimentos e receber o retorno adiado desses investimentos possua muitas formas e já exista em todo o mundo ao longo de toda a história da raça humana, a má compreensão deste processo também tem sido constante e muito difundida. Por vezes, esses benefícios adiados são chamados de rendimento “imerecido”, simplesmente por não representarem recompensas por contribuições feitas durante o atual período de tempo. Investimentos que constroem uma fábrica podem não ser repagados até anos mais tarde, após trabalhadores e gerentes terem sido contratados e mercadorias produzidas e vendidas.

Durante o ano em particular em que os dividendos finalmente começam a ser pagos, os investidores podem não ter contribuído nada, mas isto não significa que a recompensa que eles recebem é “imerecida”, apenas por não ter sido conseguida devido a um investimento feito durante esse ano em particular.

O que pode ser visto fisicamente é sempre mais vívido do que aquilo que não pode ser visto. Aqueles que observam uma fábrica a funcionar podem ver os trabalhadores a criar os produtos perante os seus olhos. Eles não conseguem ver o investimento que tornou a fábrica uma possibilidade, em primeiro lugar. Os riscos são invisíveis, mesmo quando são riscos no presente, e os riscos passados que envolveram a criação inicial do negócio são rapidamente esquecidos pelos observadores que só vêem uma empresa bem-sucedida depois desse acontecimento.

São também facilmente negligenciáveis as muitas decisões de gestão que tiveram que ser feitas ao determinar onde localizar, que tipo de equipamentos adquirir, e que políticas seguir ao lidar com fornecedores, consumidores e empregados – qualquer uma dessas decisões pode significar a diferença entre o sucesso e o falhanço. E, claro, o que não consegue ser visto são todos os negócios semelhantes que foram à falência por não terem realizado todas as coisas feitas pelas empresas sobreviventes que vemos perante os nossos olhos, ou por não o terem feito igualmente bem.

É fácil considerar os fatores visíveis como fatores únicos e de maior importância, mesmo quando outros negócios com os mesmos fatores visíveis foram à bancarrota, enquanto uma empresa habilmente gerida na mesma indústria cresceu e floresceu. Tais mal-entendidos não são inconsequentes nem económica, nem politicamente. Muitas leis e políticas económicas governamentais basearam-se nestes mal-entendidos. Ideologias elaboradas e movimentos de massas também se basearam na noção de que “apenas” os trabalhadores “realmente” criam riqueza, enquanto outros apenas tomam os lucros sem terem contribuído nada para a produção de riqueza de que injustamente partilham.

Tais mal-entendidos tiveram consequências fatídicas para quem empresta dinheiro em todo o mundo. Durante muitos séculos, aqueles que emprestam dinheiro têm sido amplamente condenados em muitas culturas por receberem de volta mais dinheiro do que aquele que emprestaram – isto é, por receberem um rendimento “imerecido” por esperarem pelo pagamento e por tomarem riscos. Por várias vezes, o estigma social ligado aos credores tem sido tão grande que apenas as minorias que viviam fora do sistema social existente estavam dispostas a entrar nas tão estigmatizadas atividades. Assim sendo, durante séculos, os Judeus foram predominantes em tais ocupações na Europa, tal como foram os Chineses no Sudeste Asiático, os Chettiars e os Marwaris na Índia e outros grupos minoritários noutras partes do mundo.

Nalgumas sociedades, não se espera que as pessoas cobrem juros em empréstimos a familiares ou membros da comunidade local, nem que sejam insistentes no pronto pagamento segundo o acordado no contrato de empréstimo. Esse género de pré-condições desencoraja que se façam empréstimos em primeiro lugar e, por vezes, desencoraja os indivíduos de fazer com que se saiba que têm dinheiro suficiente para ser emprestado. Em sociedades onde tais pressões sociais são suficientemente fortes, os incentivos para adquirir riqueza são reduzidos. Isto não é apenas uma perda para os indivíduos que podiam ter enriquecido ao apostarem tudo nessa atividade, é uma perda para toda a sociedade onde pessoas que são capazes de produzir coisas que outros estão dispostos a comprar não possam escolher especializar-se em fazê-lo.

About the author

Henrique Figueiredo

Liberal clássico, Director de Comunicação do Instituto Mises Portugal

Juro, Lucro e Teoria da Exploração - Instituto Ludwig von Mises Portugal - 2016-06-20

[…] Este pagamento é como um adiantamento, funciona como um empréstimo e, como tal, tem um juro a que chamamos de lucro: é a recompensa (dada pela preferência temporal) pelo facto do patrão ter abdicado de dinheiro que poderia investir noutras coisas. É também a recompensa pelo risco que é pagar sem ter a certeza que os produtos serão todos vendidos (para além disso, não esquecer que todo o risco de investimento está ligado aos patrões, visto que todas as instalações, máquinas, etc. foram um investimento deles). Este último ponto, apesar de óbvio agora, não foi explicado por Böhm-Bawerk, mas achei por bem referir, estando o mesmo explicado em inúmeros artigos e livros, como neste excerto de Thomas Sowell. […]

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