O invasor amigável

“Beware of Greeks bearing gifts”
Some Trojan would say

 

Sempre ouvi dizer que se atirássemos um sapo para dentro de uma panela de água a ferver, o bicho saltaria, saindo da panela. Mas, se pusermos o mesmo animal dentro de uma confortável panela com água fria e que ligássemos o lume debaixo dessa panela, o animal lá ficava até morrer cozinhado.

Para ser sincero, nunca soube da veracidade científica da afirmação. Por outro lado, dá muito trabalho agarrar um pobre sapo e testar a hipótese, sem falar do risco de ser considerado persona non grata pela PETA, o partido dos animais e a Pamela Anderson. Porém, sempre achei poderosíssima a ideia.

 A questão é como se agarra o sapo, esse animal saltitão. Continuo ignorante nessa matéria anfíbia. Mas, segundo Homero, os Gregos usaram um gigante cavalo de madeira e Peter O’Toole… perdão, Príamo, lá entregou Tróia aos opressores. Na América, os pioneiros levavam cavalos para os índios, os Navegadores portugueses começaram com espelhos e “coisas” brilhantes, etc. A História, mitológica ou científica, sempre deixou claro que a primeira fase de uma invasão bem-sucedida passa por uma amigável oferta.

E aqui chegamos ao maior invasor da História: O Estado. Aproveitando-se da ingenuidade e da ignorância do comum cidadão, o estado, escudado por uma constituição que não pretende defender as liberdades do cidadão mas sim “direitos”, consegue aprovar leis que cada vez mais atribuem mais poderes ao mesmo para invadir as nossas vidas.

E – Factura

Seria uma revolução. Informaticamente, todos os movimentos seriam comunicados às Finanças e isso seria um enorme ganho de eficiência. Todas as transacções deverão passar pelo crivo do estado. A base de dados do mesmo deveria conter informações de todos os rendimentos de quem faz qualquer venda.

Número de Contribuinte

Aquilo que era um número que a maioria só utilizava uma vez por ano, tornou-se mais importante que o contacto de telefone. Qualquer documento já solicita o mesmo. Até os jogos da santa casa exigem agora a identificação do jogador. Fez-se uma campanha de sensibilização por todo o país de modo a convencer as pessoas que solicitar uma factura com contribuinte servia para punir esses monstrinhos que não declaravam rendimentos. Como brinde, ganhava-se um bilhete para um sorteio com probabilidades no intervalo de [0;0) de se ganhar um carro topo de gama. Era o estado “justo”, à procura dos criminosos e que chegava trazendo prendas.

Ou seja, se antes já o estado tinha (erradamente) acesso a todos os rendimentos do cidadão, agora tem também acesso aos gastos do mesmo. Se antes aprendemos que nunca se deve ter o cartão multibanco e o código na mesma carteira pois um ladrão poderia conseguir as duas coisas, neste caso entregamos ao estado as informações todas, voluntariamente (?)!

Para piorar a situação e torná-la ainda num caso mais ridículo e tenebroso, foi aprovada uma lei que irá permitir às Finanças acederem às contas bancárias dos cidadãos. Será o fim do sigilo bancário e o estado terá em suas mãos as 3 peças para o nosso domínio absoluto:

Quanto ganhamos;

Quanto gastamos;

Quanto poupamos.

Falta acrescentar ainda que o programa Simplex a ser apresentado no parlamento propõe que os contribuintes já não tenham que declarar o IRS porque será tudo feito informaticamente. Ou seja, mais pressão para se solicitar o número de contribuinte nas facturas. É o estado a dizer “já temos tudo o que precisamos para finalizar o cozinhado” e são sinais claros de que possivelmente já é tarde demais.

Vivendo numa era de informatização total, facilmente aparecerá uma aplicação – provavelmente já existe – que permitirá ao estado, a partir destes dados, “desenhar” ao pormenor a vida de um cidadão. E isso levará a que essa invasão na liberdade não seja uma questão meramente financeira. Será o fim da liberdade como a conhecemos, com perseguições arbitrárias e impossibilidade por parte do cidadão de contrariar o status quo. E não falta muito. Neste momento, o sapo está prestes a ficar esturricado.

 

 

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Nuno Lopes