Todo o Socialismo está destinado a falhar

Esta é uma tradução de um excerto de Human Action, de Ludwig von Mises. O excerto em inglês pode ser consultado aqui.

Um dos mais originais contributos de Mises para a teoria e discussão económica foi o problema do cálculo económico. Segundo Mises, mesmo que todas as melhores intenções e altruísmos existissem numa sociedade comunista, os seus dirigentes não conseguiriam, ainda assim, reconhecer, metodicamente, quais os métodos mais económicos e eficientes de atingir os fins escolhidos pelo Partido. Apesar de muito criticado, Mises acabou por levar a melhor, com o colapso da União Soviética, anos depois da sua morte. Ainda assim, muitos são os que ainda hoje afirmam que todos viveríamos em eterna satisfação, se ao menos o Estado fosse bem gerido e não houvesse corrupção. O problema parece nunca estar no Estado mas sim nos políticos. Neste excerto, Mises tenta mostrar que as coisas nunca serão tão simples como os populistas fazem crer.


O director quer construir uma casa. Ora, há vários métodos aos quais pode recorrer. Cada um deles oferece, do ponto de vista do director, certas vantagens e desvantagens no que respeita à utilização do futuro edifício, e resulta numa diferente duração da sua funcionalidade; cada um dos métodos requer outras despesas em materiais de construção e em mão-de-obra, e absorve outros períodos de produção. Qual dos métodos deverá o director escolher? Ele não pode reduzir a um denominador comum os vários materiais e os vários tipos de trabalho que serão gastos. Daí que não possa compará-los. Ele não consegue atribuir quer ao tempo de espera (período de produção), quer à duração do funcionamento uma expressão numérica definida. Resumindo, ele não consegue recorrer a uma expressão aritmética, ao comparar os custos a despender e os ganhos a receber. Os planos dos arquitectos enumeram uma vasta multiplicidade de vários itens em espécie; referem as qualidades físicas e químicas dos vários materiais e a produtividade das várias máquinas, ferramentas e procedimentos. Mas falta estabelecer uma relação entre as várias declarações. Não há meio de o fazer.

Imagine-se o estado do director quando se depara com um projecto. O que ele precisa de saber é se a execução do projecto irá ou não aumentar o bem-estar, ou seja, acrescentar algo à riqueza disponível sem com isso descurar a satisfação de outras necessidades que ele poderá considerar mais urgentes. No entanto, nenhum dos relatórios lhe fornece qualquer pista quanto à solução deste problema.

Podemos, para efeitos do ponto que aqui queremos passar, descurar os dilemas que envolvem a escolha de quais os bens de consumo que devem ser produzidos. Podemos assumir que esse problema está resolvido. Ainda assim, o que fazer com a embaraçosa multiplicidade de bens de produção e a variedade infinita de procedimentos aos quais podemos recorrer de modo a produzir os bens de consumo escolhidos? A localização mais vantajosa para cada indústria e o tamanho óptimo para cada fábrica, bem como cada equipamento a utilizar têm de ser estabelecidos. Pode-se determinar que tipo de mecânica deve ser empregue em cada um deles, bem como as várias fórmulas a aplicar para a produção desta energia. Todos estes problemas são levantados diariamente em milhares e milhares de casos. Cada caso oferece condições especiais e requer uma solução individual apropriada a esses dados. O número de elementos com os quais a decisão do director deverá lidar é muito mais abrangente do que seria indicado por uma mera descrição tecnológica dos bens de produção disponíveis, em termos de física e química. A localização de cada um deles deverá ter-se em consideração, bem como a adequação dos investimentos realizados no passado para a sua utilização. O director não tem simplesmente de lidar com carvão enquanto tal, mas com milhares e milhares de escavações já operacionais em vários locais, e com a possibilidade de escavar ainda mais, e com os vários métodos de escavação em cada uma delas, e com os vários métodos de utilização de carvão para a produção de calor, potência e um grande número de outros derivados. É permissível dizer-se que o presente estado do conhecimento tecnológico torna possível a produção de “quase tudo a partir de quase tudo”. Os nossos antepassados, por exemplo, conheciam apenas um número limitado de empregos para a madeira. A tecnologia moderna acrescentou-lhe uma multiplicidade de novos usos possíveis. A madeira pode ser usada para a produção de papel, de várias fibras têxteis, e de muitos outros produtos sintéticos.

Hoje em dia, recorre-se a dois métodos para trazer água potável a uma cidade. Ou se traz a água por longas distâncias através de aquedutos, um método antigo há muito praticado, ou se purifica quimicamente a água disponível nas redondezas da cidade. Porque é que não se produz sinteticamente a água em fábricas? A tecnologia moderna poderia facilmente resolver as questões tecnológicas envolvidas. O cidadão comum na sua inércia mental estaria pronto a ridicularizar tais projectos como completa demência. No entanto, a única razão para a produção sintética de água potável hoje em dia – talvez não em dias futuros – estar fora de questão é o facto de o cálculo económico em termos de dinheiro mostrar que é um procedimento mais dispendioso do que outros métodos. Elimine-se o cálculo económico e não restarão outros métodos para fazer uma escolha racional entre as várias alternativas.

Os socialistas, verdade seja dita, apontam que o cálculo económico não é infalível. Dizem que os capitalistas por várias vezes cometem erros nos seus cálculos. Obviamente, isso acontece e sempre acontecerá. Pois toda a acção humana aponta para o futuro e o futuro é sempre incerto. Os planos mais cuidadosamente elaborados sairão frustrados se as expectativas em relação ao futuro caírem por terra. No entanto, este é um problema diferente. Hoje, calculamos segundo o ponto de vista do nosso conhecimento presente e da nossa antecipação das condições futuras. Não lidamos com o problema de saber se o director conseguirá ou não antecipar as condições futuras. O que temos em mente é que o director não conseguirá calcular segundo o ponto de vista dos seus actuais julgamentos de valor e das suas antecipações das condições futuras, quaisquer que elas sejam. Se ele investir hoje na indústria do enlatamento, pode bem acontecer que uma mudança nos gostos dos consumidores ou nas opiniões sobre a higiene da comida enlatada um dia tornem o seu investimento num investimento falhado. Mas como poderá ele descobrir hoje como construir e equipar um enlatamento o mais economicamente possível?

Certas linhas de ferro construídas no virar do século não o teriam sido se as pessoas nessa altura tivessem antecipado o avanço iminente do automobilismo e da aviação. Mas aqueles que naquela altura construíram os caminhos de ferro sabiam quais das várias alternativas possíveis para a realização dos seus planos teriam de escolher, do ponto de vista das suas apreciações e antecipações e dos preços do mercado desses dias nos quais as valorizações dos consumidores estavam reflectidas. É precisamente esta introspecção que faltará ao director. Ele será como um navegador em alto mar estranho aos métodos de navegação, ou como um erudito medieval encarregue de operar um comboio a vapor.

Assumimos até agora que o director já se decidiu quanto à construção de uma certa fábrica ou edifício. No entanto, de modo a tomar tal decisão ele já necessitará do cálculo económico. Para que se construa uma central hidroeléctrica, deve ter-se a noção se essa será ou não a maneira mais económica de produzir a energia desejada. Como poderemos saber tal coisa se não calcularmos custos e rendimentos?

Podemos admitir que numa fase inicial um regime socialista possa, até certo ponto, basear-se na época capitalista que o precedeu. Mas o que fazer depois, à medida que as condições se alteram mais e mais? De que uso serão os preços de 1900 para o director em 1949? E que uso pode o director retirar em 1989 do conhecimento dos preços em 1949?

O paradoxo do ‘planeamento’ é que não conseguirá planear, devido à ausência do cálculo económico. Aquilo a que chamamos uma ‘economia planeada’ nem chega a ser uma economia. É apenas um sistema de tactear no escuro. Uma escolha racional dos meios para o melhor alcance possível dos fins escolhidos nem chega a colocar-se. Aquilo a que se chama ‘planeamento consciente’ é precisamente a eliminação da acção propositada e consciente.

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Pedro Almeida Jorge

Licenciado em Economia pela Nova SBE. Consultor. Contacto: linkedin.com/in/pedroalmeidajorge