Juro, Lucro e Teoria da Exploração

Eugen von Böhm-Bawerk é um dos maiores nomes da Escola Austríaca. Böhm-Bawerk formou-se em Direito, mas foi-se posteriormente formando em Economia de forma independente, tendo sido um profundo admirador e seguidor de Carl Menger. Foi enquanto esteve na Universidade de Innsbruck (1881-1889) que Böhm-Bawerk mais aprofundou o seu conhecimento – foi catedrático de Economia Política primeiro aqui e depois em Viena – e desenvolveu as suas teorias, tendo publicado nessa década dois dos três volumes de Capital e Juro (a sua “Magnum opus”).

Poderíamos aqui explicar como Böhm-Bawerk refutou Marx ao explicar que nem todos os bens são resultado do factor trabalho, que o valor dos bens é algo subjetivo (depende da Utilidade que tem para o possível comprador como Menger explicou) e ao demonstrar as contradições presentes no volume III de O Capital, obra de Marx, para tentar corrigir as contradições já presentes no volume I (o que não deixa de ser irónico). No entanto, será apenas apresentado talvez o conceito mais importante na obra de Böhm-Bawerk: a preferência temporal (subjectiva), a qual explica a existência de juros (e lucros).

 

Captura de ecrã 2016-06-20, às 22.28.58

 

PREFERÊNCIA TEMPORAL

Böhm-Bawerk, que chegou até a ser, mais do que uma vez, Ministro das Finanças do Império Austro-húngaro, explicou que o juro é o resultado da “preferência temporal”, isto é, as pessoas preferem “agora” do que “depois”. O tempo é um recurso escasso, por isso nós queremos aquilo que mais nos satisfaz com o mínimo esforço possível, sendo que esse mínimo esforço inclui mínimo tempo. Se nos oferecerem um bem e disserem “queres agora ou daqui a 5 anos?”, sendo que o bem tem igual valor (subjectivo) nos dois períodos, nós dizemos “quero agora”, isto é, ceteris paribus, o agente prefere satisfazer as suas necessidades o mais depressa possível. Porquê? É a natureza humana. Böhm-Bawerk apresenta três razões para a ideia de que preferimos os bens presentes aos futuros, em condições iguais (justificação para a existência de taxa de juros positiva):

– As necessidades do presente são mais importantes que as futuras, até porque as pessoas esperam viver melhor no futuro;
– As pessoas dão menos importância aos prazeres e dores futuras simplesmente porque são futuros, porque são incertos – subestimar o futuro.
– A superioridade técnica dos bens presentes: os bens presentes podem valer mais, porque é possível investir os mesmo em processos produtivos mais longos, que resultam em maior produtividade (ver teoria do capital de Böhm-Bawerk).

É por isso – apesar de muitas vezes não ser explicado – que a base dos cursos de gestão, especialmente nas disciplinas de finanças, é a famosa frase “um euro hoje vale mais que um euro amanhã” (razão pela qual não se pode comparar investimentos em momentos diferentes sem estarem actualizados – no sentido financeiro).

Se eu precisar de 100€ hoje e alguém me emprestar os 100€, eu depois irei certamente pagar 100€ mais juros. 100€, porque foi quanto me emprestaram, e os juros para recompensar a pessoa por ter abdicado por um certo tempo do dinheiro (dinheiro esse que poderia ter investido noutras coisas). O juro é então calculado pela interacção das preferências temporais: se a pessoa valorizar muito o consumo presente – tem uma preferência temporal alta – então eu para convencer a mesma a emprestar-me os 100€ (= convencer a mesma a adiar o consumo, isto é, a poupar 100€) tenho de dar um juro mais alto do que teria de dar caso essa pessoa não valorizasse muito o consumo presente.

Quanto mais pessoas houver dispostas a oferecer a opção de consumo presente, isto é, quanto mais pessoas estiverem dispostas a abdicar de consumir agora (o mesmo que “quanto mais poupança houver”) menor será a taxa de juro e haverá maior disponibilidade de bens presentes para quem queria investir (aumentando a duração e complexidade do processo de produção). Quanto menos pessoas quiserem abdicar do consumo presente, isto é, quanto menor for a poupança mais alta será a taxa de juro. Se a taxa de juro está alta é sinal de que os investidores não devem alargar os estágios de produção, funcionando assim como aviso para os projectos nos quais não se deve investir. O problema começa, como Mises e Hayek desenvolveram mais tarde, quando uma entidade central começa a definir quais as taxas de juro, o que distorce estes sinais que seriam dados de forma natural pela taxa de juro (natural, não a manipulada por um Banco Central) e engana os investidores, causando os famosos “Booms and Busts” (ver Teoria Austríaca dos Ciclos Económicos)

O juro resulta da interacção entre a oferta da opção de consumo presente (poupança) e a procura dessa opção de consumo presente (quem procura crédito). As escalas de preferência temporal variam claro fortemente de indivíduo para indivíduo consoante os seus interesses.

 

TEORIA DA EXPLORAÇÃO

Marx achava que os lucros eram apenas o resultado da exploração aplicada pelos patrões aos trabalhadores. A mais-valia de Marx é a diferença entre o preço final e os custos do produto (pagamento de salários, dos recursos naturais, etc). Böhm-Bawerk refutou e explicou que o “problema” do lucro é o mesmo do juro, isto é, explica-se com a “preferência temporal”. Marx não percebeu que o processo de produção (e de venda) demora tempo!

Os trabalhadores produzem X produtos, mas esses bens primeiro demoram a ser acabados e segundo só serão vendidos Y tempo depois do início da produção (ponto C). Se os trabalhadores só receberem o salário quando os produtos forem vendidos estarão sem dinheiro durante Y – C tempo… O que o patrão faz é pagar adiantado ao trabalhador, pagar antes do produto ser vendido para que esse intervalo sem receber não exista.

Este pagamento é como um adiantamento, funciona como um empréstimo e, como tal, tem um juro a que chamamos de lucro: é a recompensa (dada pela preferência temporal) pelo facto do patrão ter abdicado de dinheiro que poderia investir noutras coisas. É também a recompensa pelo risco que é pagar sem ter a certeza que os produtos serão todos vendidos (para além disso, não esquecer que todo o risco de investimento está ligado aos patrões, visto que todas as instalações, máquinas, etc. foram um investimento deles). Este último ponto, apesar de óbvio agora, não foi explicado por Böhm-Bawerk, mas achei por bem referir, estando o mesmo explicado em inúmeros artigos e livros, como neste excerto de Thomas Sowell. De facto, a explicação do juro de Böhm-Bawerk não é perfeita, mas é a base, essencial portanto, de uma teoria do capital e do juro que foi depois desenvolvida por Frank Fetter e Ludwig von Mises, entre outros.

 

POPULARIDADE… VEM DA EMOÇÃO

Porque tem a teoria da exploração de Marx então tanta popularidade? Segundo Böhm-Bawerk, porque (note-se que o seguinte excerto tem mais de um século)

“Acreditamos com muita facilidade naquilo em que desejamos acreditar. A situação das classes trabalhadoras é, em geral, de miséria: qualquer filantropo tem de desejar que ela melhore. Muitos ganhos de capital nascem de fontes impuras: qualquer filantropo tem de desejar que sequem. Uma teoria que pretende resultar em melhores condições de vida para os miseráveis, diminuindo os privilégios dos ricos, terá a defesa fervorosa das muitas pessoas cujos ideais coincidem total ou parcialmente com essa teoria. E tal defesa será feita sem a lucidez crítica habitual nestas mesmas pessoas quando elas analisam uma teoria de acordo com as suas bases científicas. É compreensível, pois, que tais doutrinas despertem a devoção das massas. As massas não procuram a reflexão crítica: simplesmente seguem as suas próprias emoções. Acreditam na teoria da exploração porque a mesma lhes agrada, não importa que seja falsa. Acreditariam nela mesmo que a sua fundamentação fosse ainda pior do que é.” 1Conclusão do Capítulo XII de História e Crítica das Teorias de Juro, primeiro dos três volumes da obra Capital e Juro

Böhm-Bawerk parecia de certo modo adivinhar os regimes totalitários (Comunista russo e chinês, Nacional-Socialista alemão e Fascista italiano) que estavam para vir, consequências naturais do que acontece quando há um brutal engajamento das massas assente na emoção (e não na reflexão crítica).

Referências   [ + ]

1. Conclusão do Capítulo XII de História e Crítica das Teorias de Juro, primeiro dos três volumes da obra Capital e Juro
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Bernardo Martinho Blanco

Licenciando no curso de Administração e Gestão de Empresas da CLSBE (UCP -Lisboa). Defende que todos temos o direito de fazermos o que quisermos com aquilo que é nosso, desde que respeitemos os direitos negativos dos outros. Contacto: https://pt.linkedin.com/in/bamab