Regulação e Meritocracia – Just business, nothing personal

“…Mas os tempos mudaram. Não é como nos velhos tempos em que podíamos fazer tudo como queríamos. Uma recusa não é um acto de um amigo. Se Don Corleone tem todos os juízes e políticos nos seus bolsos, ele deverá partilhá-los connosco.
(…) Obviamente que irá cobrar por essa disponibilidade e nós iremos pagar. Até porque nós não somos comunistas.”

Don Barzini, O Padrinho, 1972

 

Há algo que me fascina nas redes sociais e na Internet em geral. É possível hoje verificar as várias reacções das pessoas às notícias, reviews de filmes, livros, etc. Seja do José das couves que mostra indignação com o salário de um futebolista, a Mariana que diz sentir vergonha pela morte de um orangotango num zoológico qualquer ou o horror generalizado com as fotos de cães assados na China, há sempre uma reacção na Net. Após uma ligeira análise dessas reacções, facilmente se verifica que a maioria delas surge sem grandes raciocínios, numa base demasiado sentimental e emotiva, mesmo quando isso não leve a conclusão nenhuma nem a correcções que resolvam a situação.

Nos últimos dias, a notícia mais comentada é a contratação de Durão Barroso pela Goldman Sachs, José Barroso, como parece preferirem no Olimpo de Bruxelas. O antigo presidente da comissão Europeia irá trabalhar como Administrador na divisão internacional de uma das maiores instituições financeiras do Mundo. As reacções, na sua maioria de indignação, falam em corrupção, favorecimento, roubo, etc. “O que percebe esse senhor do negócio da banca?” “onde fica a meritocracia?” “Para quê estudei gestão ou economia?” com alguma facilidade, encontra-se por aí uma mensagem do género.

No entanto, analisando friamente a questão, conclui-se que a escolha é extremamente inteligente e acertada por parte da Goldman Sachs. Certamente uma decisão assustadora. Mas muito inteligente. Durão trará mais valor ao Banco do que todo o staff de mercados financeiros da Universidade Nova de Lisboa. E perceber isso implica um raciocínio muito simples.

Em condições normais, num mercado livre, as empresas sobrevivem de acordo com a sua capacidade de angariar e satisfazer os seus clientes. De modo a ter o melhor serviço ou produto, investem na melhoria dos seus procedimentos, desenvolvem e utilizam tecnologia mais eficiente e procuram os melhores colaboradores. Testes psicotécnicos, entrevistas, análise minuciosa do currículo académico e, em alguns casos, até verificação da imagem nas redes sociais. Num mercado livre, as empresas temem a concorrência e a única forma de as vencer é competindo. Essa competição cria valor para o consumidor, leva à inovação, prosperidade e outras coisas boas. Essa competição cria melhores empregos, beneficiando os melhores de cada área. É a coisa mais próxima do paraíso que podemos imaginar.

Mas este não é um mercado livre. Um pouco por toda a parte, o Estado interfere na economia. Num espaço como a União Europeia, o nível de regulação ganha dimensões absurdas com um enorme grau de influência nos vários países que compõe a União e não só.
A regulação deturpa o mercado. Quanto maior for a regulação ou qualquer tipo de intervenção do estado na economia, mais deturpada fica a relação entre a procura e a oferta. Até ao ponto em que o negócio deixa de ser “satisfazer o cliente” mas sim “satisfazer o regulador”. Daí que contratar alguém como Durão, que sabe a quem ligar para conseguir passar uma lei favorável, a quem oferecer um cargo no futuro para que seja atrasado um processo, é claramente uma decisão acertada para a empresa. As corporações sabem disso tão bem como a Máfia nos livros de Mário Puzo. A única diferença é que aqui a compra é legal, merecendo apenas uns inofensivos comentários na Net.

 

E, como sempre, quem paga é o comum contribuinte, o little man. E fá-lo-á duplamente. Se, por um lado, já tinha ficado limitado aos bens e serviços mais caros da corporação que é beneficiada pelas regulações que limitam/dificultam a entrada de novos concorrentes, por outro lado é prejudicado pelo facto da corporação investir recursos na satisfação do regulador, recursos que poderia investir na melhoria do bem ou serviço.

Poderia ainda terminar indicando que o contribuinte é ainda prejudicado uma terceira vez já que é ele, através dos impostos, que sustenta toda essa regulação. Porém, comecei o texto com uma citação da Máfia. E, pelo que li, a Máfia tem valores morais e códigos de honra, coisas desconhecidas para o Estado e todos os que defendem mais e mais regulação.

 

A análise fria deste tipo de notícia leva-nos a concluir que o problema não é a empresa. Esta apenas está a tomar a decisão mais racional e a que mais proveitos trará aos seus investidores. O verdadeiro problema é a regulação. Essa é que deturpa, empobrece, atrasa e conspurca todo o sistema. “It was Regulation all along”, diria Don Corleone.

Já em relação a José Barroso, “ingénuo” candidato promovido apenas pelo seu excelente “know-how”, não devemos ter quaisquer sentimentos negativos.
Afinal, “it’s just business, nothing personal”.

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Nuno Lopes