Comunismo a sério

Há uma constante nas minhas conversas, ou testemunhas de amigos meus, com comunistas : haverá sempre um momento em que, sobre tal ou outro país que foi governado por partidos proclamados comunistas, que aquilo “não era comunismo a sério”.

Estaline não era um comunista a sério. Castro também não. Tão pouco Tito. Chávez nem se fala. Nem sequer Tsipras pode ser apelidado de socialista. Não, nem sequer Jerónimo de Sousa é comunista, e se me falares do Garcia Pereira!!!

Comunas mortes

Enfim são frases que podem ser ouvidas por todo lado, com pouco esforço encontram-se toneladas delas – a pérola magna seria Marx ser apelidado de falso comunista, se bem que ele no final da sua vida já não se dizia marxista quando via o que faziam os seus crentes!

O problema é que então continuamos sem saber o que é comunismo. Quando pergunto tenho direito a respostas tão esclarecedoras como um fósforo gasto na escuridão:

Comunismo a sério é ser pelo povo. Comunismo a sério é ser contra a opressão. Comunismo a sério é ser pela igualdade. Comunismo a sério é ser contra o capitalismo (esta última será a mais precisa!).

De vez em quando cruzo-me com medidas mais concretas como estatização dos meios de produção (nomeadamente da banca até há pouco tempo, quando aquilo ainda dava lucro), aumento das prestações sociais, aumento de impostos sobre os ricos (o que é um rico a propósito?), aumento do salário mínimo.

No entanto os comunistas mais precisos vivem numa contradição insanável. Convergem na ideia de eliminar a exploração, a opressão e a desigualdade, mas propõem como meio… o Estado… Ou seja, o explorador opressor dominante mor…

Essa contradição é tanto mais inexplicável que existem inúmeros textos e militantes da área comunista que repudiam o Estado. Aliás, os movimentos comunistas iniciais construíram-se frequentemente em oposição ao Estado! O Estado era o instrumento da burguesia, era quem mantinha a exploração viva, era quem impedia aos proletários de serem autónomos com as suas cooperativas e mutualidades.

Isso significa que os comunistas actuais viraram, em larga medida, estatistas. São no fundo, os novos privilegiados e defensores da ordem estabelecida. Traíram os seus valores.

comunas rico

Por incrível que possa parecer, é totalmente possível ser comunista e liberal ao mesmo tempo. Mais, a única forma de realizar o comunismo a sério, é precisamente de o fazer com pressupostos liberais!

Como querem criar e convencer os trabalhadores a criar cooperativas e mutualidades sem liberdade? Como querem que isso aconteça se não existe liberdade para eles se organizarem como entenderem? Como querem os convencer a embarcar nesses projetos à força? Não podem, precisam de liberalismo!

Como querem incentivar a partilha de bens se os impostos roubam metade dos bens? Se continuamos a subsidiar e proteger por lei grandes capitalistas? Como querem acabar com a desigualdade se os bancos centrais continuam a sustentar grandes bancos? Como querem libertar os pobres da opressão se lhes põem na frente toda a série de proibições legais? Não podem, precisam de liberalismo!

O problema é precisamente esse, os comunistas viraram estatistas. Se eles estivessem verdadeiramente preocupados com os pobres, com o fim da tristeza e penúria, veriam nos liberais os seus aliados naturais.

Mas não, preferem insultar-nos a cada dia que passa porque fazem parte da casta agora. E isso é tanto lamentável que essa atitude, não só é contraditória como fere todo o espírito comunista.

O que é o espírito comunista? É precisamente uma maneira de estar na vida conciliada com as ideias. Como o comunismo preza a partilha, o altruísmo, a igualdade material, então há que viver segundo esses princípios.

Mas o que temos em troca?

Temos deputados do PCP que doam o seu ordenado ao partido, os pobres não veem nada ao que se conta.

Temos festas do Avante e manifestações por tudo e nada, ou seja ao invés de instruir e de se instruírem andam a distrair o povo.

Temos um património imobiliário importante do PCP, mas nunca ouvi histórias de mendigos que dormiam lá ou de refugiados acolhidos lá.

Temos os deputados mais jovens do Parlamento nos grupos parlamentares mais à Esquerda, ou seja andamos a distrair o povo com engraçadinhos.

Temos militantes e sindicalistas que, ora nunca puseram um pé numa fábrica ou num campo, ora não lá voltaram desde o 25 de Abril.

Temos partidos que despedem e insultam inclusive militantes sem dó nem piedade, pelo motivo que não atingiram os resultados eleitorais.

Temos sindicalistas mobilizados para manifestações em prol do Estado, mas ignorantes quando não insultuosos quando é o sector privado que protesta.

Temos militantes que insultam sem vergonha em vez de promover o debate e a compaixão.

Temos militantes que ficam agarrados ao passado, ao invés de abraçarem a modernidade e a esperança que o futuro nos oferece.

Temos militantes que se comportam como grandes capitalistas e enriquecem, sem darmos conta que o dinheiro deles foi para os pobres.

Enfim, não temos liberais…

PS: este artigo é da única responsabilidade do autor, não reflete necessariamente a opinião do IMP.

About the author

André Pereira Gonçalves

Colaborador do Instituto Ludwig von Mises Portugal, estudante em Direito na Universidade de Friburgo (Suíça), anarco-capitalista jusnaturalista.