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Baralhados Mentais à Direita Cristã

meme 2782016

Tinha acabado de vir de um intervalo da minha vida de pobretanas (sim ainda vejo televisão num aparelho de 1994, tenho um telemóvel com cores e toques polifónicos e mal me mantenho economicamente à tona para preservar a minha funcionalidade social, se têm alguma objeção contra os meus requisitos de pobreza vão tirar teimas com o sociólogo Peter Townsend[1]), quando chego à internet para ver o que se andava a passar no mundo e deparo-me com um artigo-entrevista[2] que preconizava o líder da Juventude Popular (JP), Francisco Rodrigues dos Santos, que, para não variar, é mais um advogado metido na política. Eu, como não tenho mais nada que fazer, mas tenho uma pseudo-quasi-formação filosófica (que serve apenas na prática da vida para nos armamos em espertos na internet) decidi analisar e criticar esta excelente peça literária.

Li o artigo. De seguida encostei o meu polegar e indicador sobre a zona do nariz onde se posam os óculos e esfreguei levemente os olhos, passando depois a mão inteira pela cara como se estivesse a limpar a cobertura de uma tarte que me atiraram à cara. meme 2882016-3Esta é sequência habitual de movimentos que faço, seguida de um longo suspiro, quando leio, oiço e vejo coisas que subjetivamente me soam a estupidez. Com toda a justeza – porque um conservador não pode ser precipitado nos seus juízos – talvez o formato em que a entrevista se deu não tenha sido propício a um desenvolvimento adequado dos tópicos abordados e o jovem RdS (esta é a minha abreviatura para Rodrigues dos Santos), por isso, não teve oportunidade de expor as coisas que lhe passaram pela cabeça como gostaria. Ainda assim, fazendo referência à apreciação de Sam Harris (neurocientista-filósofo/intelectual público) sobre a articulação linguística de Donald Trump[3], há coisas que não nos saem da boca mesmo em condições de stress, ou de falta de tempo, ou em qualquer outro contexto, se tivermos as ideias devidamente estruturadas e compreendidas na nossa mente.

Acho que é essa a abordagem que se deve adotar quando se lê as respostas do jovem RdS. Estou, concretamente, a acusá-lo de não ter as suas ideias devidamente entendidas e estruturadas. Como não gosto de apontar o dedo sem me justificar vamos então passar à sua entrevista. Vários assuntos foram postos em cima da mesa, mas não vou criticá-los todos, estou-me nas tintas para as telenovelas políticas que vão surgindo nos noticiários. Acho que é mais pertinente abordarmos temáticas políticas em vez de politiquísses.

A primeira coisa que me fez voltar a suspirar foi o uso imediato de chavões linguísticos como “mais Europa” e “eurocético” sem se saber ao certo do que é que se está a falar, o que torna a comunicação entre as duas partes um caos. Não sei se já repararam, mas é corrente neste momento – e é irritante – a constante equivalência entre “Europa” e “União Europeia” (EU). Eu pensei que fosse obvia a diferença, mas como já vi que existem dificuldades neste campo cá vai: meme 2882016-3“Europa” é um nome, é um símbolo ou um sinal sonoro, que reporta uma determinada demarcação territorial geográfica. A essa área os geógrafos chamam de “continente”. “UE” é uma instituição criada por pessoas e a sua existência emerge de relações entre indivíduos e edificação de espaços físicos que servem de centrais para a preservação dessas relações. “Europa” existe com ou sem pessoas, “UE” só existe se o tipo correto de pessoas se organizarem nesse sentido. Isto para dizer que expressões como “mais Europa” e “eurocético” é estupido! “Ah mas é no sentido figurado!!!”, é estupido na mesma, só atrapalha a comunicação. Adiante.

De seguida, RdS afirma que é um “eurocontido” em vez de um “eurocético”… what the hell!!! O que é isso de um “eurocontido”? Qual é a diferença entre o cético e o contido? Ou não há diferença nenhuma, mas é giro fazer estes joguinhos de palavras porque eurocético normalmente está associado a partidos europeus ingleses, polacos e húngaros, que na gíria dominante são mal vistos e, portanto, convém arranjar outro nome que quer dizer exatamente o mesmo embora se escreva e se sonorize de forma diferente? Dito isto, o problema de confundir significados de palavras surge. A estrutura lógica das afirmações de RdS é mais ou menos assim: “sou contra a europa de forma “x”; mas isso não nega ser a favor da europa de forma “y”; não quero mais “x” mas isso não implica menos “x” porque menos “x” é regredir; quero é maior “y”; mas o meu partido respeitou e honrou contratos da europa de forma “x” porque eu e o meu partido somos altamente “x”; mas não no sentido de “x” mas sim de “y””. Portanto, dadas as contradições lógicas flagrantes, RdS não disse nada, emitiu apenas sons passíveis de transcrição, mas que não significam nada.

No final desta história da Europa ou da UE, ficou-se sem perceber qual é a posição do CDS ou do jovem RdS face à UE. Parece que RdS está na dialética de um dilema: “sou a favor de Estados independentes (E.i), ou sou a favor de integracionismo internacional (i.i)?”, “mas se eu sou a favor de E.i e autodeterminados como é que defendo o i.i?”, “mas espera i.i (“mas isso não nega uma orientação europeia […] que veja os Estados-nação […] para a integração europeia posterior) não é a mesma coisa que federalização (“Mas não me insiro no eixo federalista”)?”, “é que federalização é a integração de governos regionais num só sistema político central, mas se eles estão integrados e existem leis comuns por decreto centralizado, então faz sentido dizer que esses governos regionais são soberanos?”.  Quanto a mim parece-me que o nosso amigo quer dar ares de conservador, defendendo autodeterminação dos povos e blá-blá-blá, mas na realidade é um neoconservador que gosta de controlo e expansão territorial através de grandes aparelhos de Estado centralizados.

Acham que não? Existem pela entrevista mais algumas evidências que assim o sugerem, por exemplo a sua veneração por Paulo Portas como político. Se bem se recordam há uns anos atrás Paulo Portas estava enamorado com as políticas do Governo de George Bush, inclusive viajou até aos Estados-Unidos onde deve ter apreciado as evidências não-derrotáveis sobre o armazenamento de Armas de Destruição Maciça que levou à Guerra Iraquiana de 2003[4]. Desta forma, embora não haja qualquer ligação necessária entre as preferências políticas de Portas e de RdS, é razoável supor que o segundo partilha de uma essência política com o primeiro. Ora, se assim é, e o Governo de Bush é um “template” perfeito de uma ideologia neoconservadora, segue-se razoavelmente que RdS deve ter algumas inclinações para esse lado embora queira dar impressão que não pelo seu discurso confuso.

Mas os problemas não se ficam por aqui. No início, RdS afirma que “[e]stá a seguir-se uma linha progressista e iliberal” na UE (ou Europa?!), e diz isto num sentido pejorativo. Posteriormente afirma que “[o] CDS é um partido personalista, humanista, democrata cristão, que respeita as liberdades civis” e que “temos jovens democratas cristãos conservadores, liberais”, isto sobre as pessoas que populam a JP.  Finalmente, “[d]evia ser criminalizado, sim. Devíamos regressar ao modelo anterior” quanto ao aborto e à sua clandestinidade; uma facada, como quem não quer a coisa, na eutanásia voluntária “[a] JP defende a vida da conceção à morte natural. Nada deve opor-se à vida por mero egoísmo”; depois “[n]ão me faz confusão que haja uma chancela do Estado que una dois homens, mas não devia chamar-se casamento” quanto ao casamento de casais homossexuais; “[s]ou francamente contra a adoção por casais homossexuais”; e por fim, “[n]ós somos contra (…) é um caminho para a degradação do homem.”, relativamente à legalização do consumo de drogas leves (!).

What the hell!!! RdS, és liberal aonde?! E a JP, é liberal aonde?! Começas por condenar o iliberalismo da U.E, logo a seguir alegas que defendem liberdades civis e rematas com a existência de supostos liberais na JP, apenas para depois espezinhares as liberdades civis todas que te lembraste! Va lá não te ocorreumeme 2882016-3 mencionar liberdade de expressão ou liberdade de movimento… Mas que raio de liberalismo é este? Até preferem empurrar as mulheres – em qualquer circunstância abortiva – novamente para a clandestinidade; querem o quê, que voltemos às parteiras abortadeiras do Estado Novo, aquelas senhoras que pareciam agentes da Résistance Française durante a IIGM? Aos abortos caseiros feitos pela própria grávida com agulhas de tricô? Ou a caírem “acidentalmente” das escadas?  Ou se calhar é melhor aquelas estafetas que as grávidas faziam para o “navio do aborto” holandês! E conservadorismo? Um conservador pode discordar de muitas práticas morais, mas não se lança numa cruzada moralista usando como instrumento de combate o sistema legal de um Estado para satisfazer as suas preferências morais pessoais. Um verdadeiro conservador tem repulsa a sistemas legais complexos e demasiado abrangentes que penetram na vida privada de forma excessiva[5]. Portanto não és liberal nenhum e muito menos conservador, como afirmei em cima, és um neoconservador ao estilo de Bush sedento de poder estatal sobre os cidadãos do próprio país e com devaneios de grandeza de poder internacional.

E já agora que raio de conceito de democracia cristã é este em que cabem, pelos vistos, neoconservadores e liberais? Isto é o quê? Serve para oscilar as diretivas do partido consoante os ventos políticos do momento? Se estiver a soprar para ali usamos a nossa vertente liberal, se estiver a soprar para aculi usamos a neoconservadora! Novamente, uma confusão descomunal esta gente da política, não conseguem dizer meia dúzia de coisas sem algures se contradizerem. Voltando à avaliação de Sam Harris sobre Trump, as cabeças dos políticos, e em concreto do RdS, são um caos. Esta gente literalmente tem a cabeça feita em farinha. Pavoneiam-se pelos corredores dos grandes edifícios públicos e sobre as suas formações académicas sem saberem o que andam a fazer e a dizer.

Podemos ver os políticos de duas maneiras: ou como intencionalmente honestos nas suas funções, ou intencionalmente maquiavélicos, mas em qualquer uma das hipóteses, na prática (a materialização da intencionalidade), são uns desorganizados mentais. Se são honestos, precisam de ajuda urgentemente nas suas funções; se são maquiavélicos são péssimos mentirosos, são péssimos nos jogos de sombras e cortinas de fumo.

Mais não vou dizer que já escrevi palavras a mais e isto é suposto ficar curto. Ai Deus, dai-me paciência!

 

 

 

 

*O artigo não vincula necessariamente a posição de todo o IMP, configurando a opinião do autor em questão

[1] Townsend, Peter, 1979, Poverty in the United Kingdom: A Survey of Household Resources and Standards of Living, Harmondsworth, Middlesex, Inglaterra, Penguin Books Ltd, cap. I, pág. 31

[2] ‘Francisco Rodrigues dos Santos. “Queremos uma juventude do povo! Não temos de ter medo de dizê-lo”’, Sebastião Bugalho, Jornal i, 2016, recuperado de http://ionline.sapo.pt/521527

[3] ‘Sam Harris articulates why Donald Trump is a dangerous candidate’, Sam Harris, Mr3000BM, 2016, recuperado de https://youtu.be/Az1JyDJ_iKU?t=120

[4] https://pt.wikinews.org/wiki/O_ex-ministro_da_Defesa_de_Portugal_Paulo_Portas_%C3%A9_condecorado_pelo_secret%C3%A1rio_Rumsfeld_dos_EUA // https://www.youtube.com/watch?v=dmtNglSw0No // https://www.c-span.org/video/?170663-1/usportugal-relations // http://videos.sapo.pt/uqwCCNaJZIuWNhZVNzL3 //

[5] Para uma exposição um pouco mais longa sobre liberalismo e conservadorismo consultem http://mises.org.pt/2016/08/conservadorismo-liberalismo-assuntos-do-dia/

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João Miranda