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Investigando o mundo com as “ciências” feministas

            Coisa estranha que me tem acontecido este Verão. Segundo a teoria feminista do Género Estranho (Gender Queer [GQ]), o que as e os feministas e outros marxistas culturais defensores da Interseccionalidade defendem é que os órgãos genitais e outras estruturas fisiológicas do corpo humano nada têm a dizer sobre a identidade sexual dos indivíduos. É por isso que elas e eles distinguem sexo de género. Sexo é, digamos, a etiqueta objetiva que se coloca num indivíduo segundo a sua estrutura física (ou material, aquilo que é observável). Género é a etiqueta subjetiva que o indivíduo designa para si próprio. É a identidade sexual que sente ser a sua.

            Acho que este é o melhor paradigma ou mundividência para explicar o que me tem acontecido na rua. Só neste paradigma é possível conceber um conceito de “género fluido”. São indivíduos que mudam de género com frequência. Ocorre mediante certos períodos de tempo e espaço. São como cata-ventos de género. Eu acho que encaixo nessa categoria. Sou uma pessoa de género fluido não-binário (porque flui entre macho e fêmea, se fosse binário ou era macho ou era fêmea).

            O que me leva a pensar isso? Passa-se o seguinte. Quando vou correr (sim, eu faço exercício) existe uma estranha tendência de ser buzinado pelos carros. No princípio não liguei. Descartei logo a possibilidade dos buzinanços serem para mim. Mas quando um mesmo fenómeno começa a ser repetitivo convém darmos atenção ao padrão que se está a construir.

            Comecei a olhar para o lado quando buzinam. De facto, quando buzinam estão a olhar para mim. Portanto, o mais provável é as buzinas serem para mim. Agora está na altura de específicos. Aqueles que buzinam nunca vêm sozinhos nos carros. Estão lá sempre os seus pares. Quando as buzinas me são dadas pelas costas, ao passarem por mim vejo que são homens. Quando me são dadas pela frente, são mulheres.

            Infelizmente não consigo ver bem as expressões faciais destas pessoas; não se esqueçam, elas estão de passagem. Mas desconfio que esteja a ser alvo de piropos. Surge a questão: mas como é que posso ser alvo de piropos dos dois géneros binários? (Desculpem os termos, mas não se esqueçam que estamos a tentar explicar o mundo através de um paradigma de Género Estranho [GQ]). Eis o que me veio à cabeça. Por um lado, tenho uma barba digna de um conto folclórico canadiano sobre lenhadores; por outro tenho um cabelo comprido limpo e sedoso (a maior parte das vezes) castanho que durante o Verão ganha umas madeixas loiras. Parece-me que por detrás os homens devem-me confundir com uma mulher. Mas como é que isso acontece? É que eu costumo correr com uns corsários de running (não é de corrida é de running. Running é uma coisa mais à frente) e são bastante justos. Como sou magro, mas tenho umas coxas e glúteos com algum volume (e à distância não se vêem bem os pelos das pernas) e tenho cabelo comprido os homens devem-me confundir com uma mulher avantajada (“gaja do ferro”). Quanto às mulheres devem só achar piada a lenhadores canadianos com corsários de running a correr, é uma mistura estranha de fatores.

            É por isto tudo que creio ser de género fluido não-binário. O meu género muda consoante o posicionamento do observador, ou seja, flui relativamente ao espaço. Esta última afirmação traz problemas, não se esqueçam que a identidade sexual é definida pelo próprio indivíduo segundo o Género Estranho. Mas, pensando bem, o feminismo também, no geral, é um grande apologista do Construcionismo Social e, sendo assim, a minha identidade sexual também pode ser definida por terceiros. No final temos estas duas teorias em conflito. Uma diz que depende do sujeito, a outra da sociedade que o rodeia. Mas como no feminismo também são simpatizantes do relativismo, segue que as duas teorias são verdadeiras e, portanto, eu tanto sou um homem cisgénero (significa que o meu género intersecta com o meu sexo [aquilo que sinto intersecta com as minhas propriedades biológicas]) como também sou um género fluido não-binário. Ainda bem que temos o novo feminismo para ajudar a resolver este tipo de problemas.

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João Miranda