Para onde nos levam os bancos centrais?

POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

Depois de um mês de agosto pautado pela falta de liquidez e ausência de volatilidade nos mercados, aguarda-se com expetativa a chegada do sempre imprevisível mês de setembro, tradicionalmente caracterizado pela elevada volatilidade e influência na tendência dos mercados até ao final do ano.

É pertinente realçar o encontro anual nos EUA que reuniu os principais banqueiros centrais e economistas de renome mundial, realizado em “Jackson Hole”, no Wyoming, nome pelo qual é conhecido. Este ano era esperado com entusiasmo o discurso da Presidente da Reserva Federal norte-americana, Janet Yellen, no que concerne à subida, ou manutenção, das taxas de juro de referência da FED até ao final do ano. Nos dias, e mesmo meses, que antecederam a reunião havia uma sintonia alargada pelos economistas e analistas que não esperavam mais nenhuma alteração nas taxas de juro até ao final de 2016. Porém, e após Janet Yellen ter referido que a economia dos EUA está mais robusta e que as metas para a inflação e emprego estão mais próximas dos objetivos, deixou no ar a dúvida quanto a uma ou duas subidas de um quarto de ponto nos próximos quatro meses. Os futuros das “Fed Funds Rate” negociados na bolsa de Chicago continuam a apontar, mesmo em dezembro, para a manutenção das taxas nos 0.5%, um sinal de que a subida de taxas não está a ser encarada como certa pelos investidores. O mercado laboral nos EUA não tem criado postos de trabalho suficientes para manter um crescimento do PIB na casa dos 2 ou 3%. E a diminuição da população ativa nos últimos cinco anos, devido a muitos desencorajados que deixaram de procurar emprego, contribuiu em parte para a queda da taxa de desempregos dos 10% em 2009 para os 4,7% há três meses.

Se os EUA não subirem as taxas, e o Banco Central Europeu (BCE), o Banco do Japão (BoJ) e restantes bancos centrais de referência mundial como o Banco Nacional da Suíça (BNS) e o Banco de Inglaterra (BoE) permanecerem com a sua politica monetária fortemente inflacionista, poderemos assistir ao agudizar de uma provável bolha financeira que tem vindo a formar-se ao longo dos últimos anos. Não são só os índices acionistas norte-americanos que estão em máximos históricos, os mercados obrigacionistas também se encontram bastante valorizados com as taxas de rentabilidade (yield) das obrigações do tesouro dos EUA a 10 anos nos 1.6% e a yield do bund alemão negativa de -0,1%, o imobiliário norte-americano já se encontra a preços de 2006, o seu máximo. Todas estas valorizações, e máximos consecutivos dos ativos financeiros, são fruto da resposta dos investidores às políticas monetárias expansionistas encetadas pelos bancos centrais, após a crise financeira mundial de 2008, com vista a debelar e resolver o problema financeiro gerado. No entanto, essa política estará, muito provavelmente, a criar um problema maior já no futuro próximo.

Estaremos a entrar em “mares nunca dantes navegados”, numa experiência nova e jamais ensaiada em toda a história monetária. A preferência por liquidez é uma das principais marcas dos tempos atuais. Há alemães a comprar cofres para guardar o dinheiro, tal como se guardam barras de ouro. As comissões de manutenção dos bancos têm aumentado e as taxas de juro oferecidas são praticamente zero, desincentivando os depósitos junto dos bancos. O dinheiro à ordem nos bancos pode ser emprestado a qualquer momento, devido ao sistema de reservas fracionárias em que assenta a banca comercial, e, pelo risco acrescido, é também um desincentivo à manutenção desses depósitos. Um reflexo desta atitude dos depositantes é a diminuição de poupança para emprestar, a não ser que se criem certificados, com curso legal corrente como se de uma moeda se tratasse, baseados nos depósitos que estão nos cofres. Os bancos comerciais cederam crédito a taxas baixas, no que concerne aos “spreads”, e hoje não conseguem recuperar esse dinheiro porque os indexantes são negativos, nomeadamente taxas de juro de curto prazo do mercado monetário como a euribor a 6 meses. O crédito malparado é cada vez mais uma realidade crescente. Há vários anos que assistimos ao enfraquecimento da banca comercial com consecutivos resultados negativos que mais cedo ou mais tarde irão repercutir-se nas bolsas e na economia.

A preferência por liquidez é bastante racional para os agentes económicos avessos ao risco. A inflação é baixa, e mesmo negativa (deflação), o que mantém o valor do dinheiro detido mesmo que esteja parado. Muito provavelmente, mil euros hoje comprarão a mesma coisa daqui a três ou quatro anos… ou se calhar mais.

Paulo Rosa, Jornal semanário “Vida Económica”, 2 de setembro 2016

About the author

Paulo Monteiro Rosa

Economista. Licenciado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Autor de vários artigos publicados no Jornal de Negócios, Diário Económico, Vida Económica, Público, Funds People, ATM-Associação Analistas Técnicos Mercados Capitais e Câmara de Comércio Luso-Americana. Autor do Blogue: Omnia Economicus.