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“Os imigrantes fazem o trabalho que nós não queremos fazer” é meio raciocínio

A questão da imigração passa por algo mais do que apenas o lado económico e um dos problemas principais é o choque de culturas que pode haver entre imigrantes e nativos. Falar, assim, sobre “a imigração” sem fazer a contextualização devida é dizer muito pouco pois o que se vai passar no país que recebe os imigrantes depende da afinidade ou não de culturas e da quantidade de imigrantes que está a entrar em dado momento. Neste artigo faço apenas uma abordagem introdutória ao aspeto económico da imigração.

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Ninguém simplesmente trabalha ou não (refiro-me a trabalho remunerado). As pessoas trabalham em troca de um salário – o preço do trabalho. Portanto, dizer que “os imigrantes fazem o trabalho que nós não queremos fazer” é falar de economia sem falar de preços – é economia soviética (muito praticada para os lados da esquerda mas nós não queremos isso).

Como referi num artigo anterior, o salário das pessoas para um certo tipo de trabalho é determinado pela oferta e procura desse trabalho. Nesse artigo referi que se toda a gente começar a estudar para doutor e só quiser exercer funções de doutor, então os limpa-chaminés, cantoneiros e trabalho braçal em geral começam a ganhar mais do que um médico ou um mestre em contabilidade. Os anos de estudo ou o custo que a pessoa incorreu para ter certa habilitação académica/profissional são irrelevantes para o salário que essa pessoa irá receber (exceto na função pública, que está isenta do mundo real); esse custo (em termos de tempo e dinheiro) é apenas relevante para a oferta de trabalho que vai existir – é natural que quanto maior o custo ou exigência física/mental de determinada habilitação/formação menos sejam as pessoas dispostas a pagá-las; isto faz com que a oferta de trabalho nessa área seja mais pequena e que os salários tendam a ser maiores.

Os imigrantes, ao aumentarem a oferta de trabalho em certas áreas tendem a deprimir aí os salários. Um empregador contrata imigrantes apenas na medida em que estes trabalhem a um salário mais baixo que os nativos do país em causa e não por os nativos recusarem-se a trabalhar nessa área. Como dizia o outro: “diz-me o teu preço”. Uma pessoa é capaz de se recusar a limpar casas de banho por 500 euros/mês mas se calhar já aceita pelo dobro desse salário. A vantagem dos imigrantes é que não pensam duas vezes para ganhar esses 500 aéreos. Em muito casos é o triplo ou muito mais do que ganhavam na terra natal.

Um exemplo: muitas explorações agrícolas nos EUA sobrevivem apenas devido ao emprego de imigrantes (muitos deles “ilegais”). Um proprietário que emprega 300 desses imigrantes dizia um dia destes na CNN que oferece emprego a quem aparecer mas que os nativos não querem trabalhar ali; de momento só tinha um norte-americano a trabalhar lá. Mas a questão é que os nativos apenas não querem trabalhar lá porque o salário é muito baixo para as suas exigências. E porque é que o salário é muito baixo? Por duas razões – pela pressão exercida na oferta de trabalho pelos imigrantes e pelo baixo preço a que os agricultores têm que vender os seus produtos de modo a poderem competir com a concorrência externa.

Suponhamos que o agricultor não podia contratar imigrantes. Nesse caso poderia pagar salários talvez um pouco mais altos mas estaria sempre limitado pelo preço a que pode vender os seus produtos, que enfrentam concorrência (quer na importação quer na exportação) de produtores de outros países que têm custos de mão-de-obra 5 vezes mais baixos. Os salários que o agricultor pagaria seriam sempre, portanto, baixos. Aqui, das duas uma, ou as pessoas aceitam trabalhar a esse salário ou não. (e isto já nem falando do salário mínimo nacional). Na medida em que essas pessoas tenham outras alternativas de rendimento ou sustento o patrão pode não encontrar o número de pessoas que precisa para levar a exploração agrícola para a frente. Mas, se o patrão puder recorrer a imigrantes ”mais baratos” ele aí já pode ter lucro com a exploração; por outro lado, os salários que ele paga serão ainda mais baixos.

A imigração faz assim descer o nível médio dos salários (em termos monetários) – diretamente nos setores para onde se dirige e indiretamente nos setores para onde os antigos trabalhadores nativos agora se dirigem (embora desemprego pode ser um desses setores). O país tem portanto, agora, mais população mas também mais produção, o que quer dizer que os salários baixam mas os preços dos bens e serviços também baixam (descontando a inflação monetária). Em média, nos casos em que o salário baixa menos do que os preços, os nativos ficam a ganhar e vice-versa. Poderíamos falar, para um prazo médio-curto, numa população ótima para um dado nível de tecnologia e capital físico onde existe um ponto máximo para os salários reais. Se a economia estiver já para além desse valor quer dizer que o aumento da população é mais do que proporcional ao aumento da produção e o nível médio dos salários reais diminui; se a economia estiver aquém, vice-versa.

Conclusão:

  1. Certos trabalhos têm forçosamente que pagar salários baixos pois a concorrência (nomeadamente a internacional) na venda do produto final assim o obriga.
  2. A imigração faz sempre descer os salários nas áreas para onde se dirige. Por um lado isto faz com que certas atividades que não seriam viáveis com mão-de-obra local devido a esta recusar-se a trabalhar a salários muito baixos, se tornem viáveis. Por outro lado a descida de salários devido à imigração para certas áreas de atividade faz com que cada vez mais nativos não queiram trabalhar nessas áreas.
  3. Daqui segue que a proibição da imigração tornaria inviáveis (não rentáveis) certas linhas de produção nacionais (que podiam ser ou não substituídas por importações –as maçãs podem mas um zelador de WC não) mas, por outro lado, asseguraria salários mais altos para os nativos em certos setores – que se traduziriam, hélas!, num custo também mais alto para o resto da população.
  4. Em termos globais os salários médios do país podem subir ou descer no curto-médio prazo consoante a relação entre o aumento da população e o aumento da produção que essa população acrescida permite seja positiva ou negativa.
About the author

Rui Santos

Economista e Lead Researcher do Instituto Ludwig von Mises Portugal.

Trump! – Não Faças Asneira e Deixa Estar o Comércio Internacional. - Instituto Ludwig von Mises Portugal - 2016-11-16

[…] Se o leitor quiser ler mais sobre isto aconselho Reisman, pp. 343-371, esp. 350-367. Neste artigo também falei, em traços gerais, sobre a questão da imigração. O leitor deve complementá-lo […]

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