O Sr. Reitor da Universidade de Coimbra é um Ludita.

Diz o Sr. Reitor que “existe uma motivação económica enorme para a substituição de uma pessoa por uma máquina.” […] E dá o exemplo das portagens da autoestrada. “Não sei porque é que a máquina que substituiu as pessoas na portagem da autoestrada não paga taxa social única. Acho que devia pagar”.

Esta preocupação com o facto de as máquinas substituirem as pessoas ganhou particular relevo no início da revolução industrial  (já lá vão aí uns 250 anos), por razões óbvias, e teve o seu auge no movimento ludita – um movimento operário que em 1812, na Inglaterra se dedicava ao assalto de fábricas para destruição das máquinas. «O Reino Unido  já possuía em sua legislação uma lei datada de 1721 que definia o exílio como pena máxima para a destruição de máquinas e em 1812 como resultado da oposição contínua à mecanização definiu a pena de morte para casos de destruição de máquinas.» (ver aqui).

luditas

Esta visão primitiva em relação às máquinas já vem, portanto, de há muito tempo. É de estranhar, por isso, que apesar do grande aumento dos níveis económicos de vida proporcionados nestes últimos 250 anos pela industrialização e automatização, surjam frequentemente, de tempos a tempos, ondas de opinião (onde o Sr. Reitor é um entre muitos) que manifestam a sua objeção contra esta situação e defendem alguma forma de a combater – os luditas originais optavam pela destruição direta das máquinas; o Sr. Reitor e os luditas modernos preferem antes a destruição indireta (mais subtil mas igualmente destrutiva), pondo as máquinas a pagar mais impostos (quem as produz e/ou quem as usa).

Mais uma vez, como quase sempre em Economia, estamos perante aquilo a que Bastiat chamava “o que se vê e o que não se vê”. O que os Luditas vêem são as máquinas a substituir postos de trabalho (como as máquinas de portagens substituíram os portageiros das autoestradas); o que os Luditas não vêem é que essas máquinas têm que ser construídas e ‘manutenciadas’, sendo portanto criados novos postos de trabalho para esse fim.

Os Luditas modernos devem sem dúvida ter ficado impressionados com a substituição de trabalho que tem ocorrido nos últimos 20/30 anos devido à revolução informática. Por exemplo, se antes uma empresa precisava de 5 contabilistas hoje só precisa de 1 para realizar o mesmo trabalho graças ao computador disponibilizado com um software de contabilidade. Isto é o que o Ludita vê; o que o ludita não vê é que os computadores precisam de pessoas para serem concebidos e construídos; requerem software que também exige pessoas que o criem, etc; o que se passa com a automação é que o trabalho desloca-se para montante; na linguagem da escola austríaca, a estrutura de produção torna-se mais alongada – os postos de trabalho deslocam-se das indústrias que estão mais perto do consumidor para indústrias que produzem essencialmente bens intermédios (que servem para produzir outros bem e serviços). A extinção de portageiros e contabilistas não faz apenas com que se crie trabalho nas fábricas que produzem as máquinas de portagens e os computadores; mas, mais do que isso, cria postos de trabalho em todas as indústrias ligadas à eletrónica, nanotecnologias, ciências da computação e tudo o resto cujos produtos são necessários à criação de computadores e outras máquinas inteligentes.

No fim deste processo de automação temos uma produção final de bens e serviços maior do que tínhamos antes e uma produtividade maior do trabalho (Produção total a dividir pelo nº de trabalhadores). Este aumento da produtividade dos trabalhadores faz com que, pelo processo de concorrência entre empresas por trabalhadores, os salários reais aumentem. Este aumento dos salários (e lucros) faz com que a procura de trabalho, por sua vez, aumente em muitas áreas onde as pessoas estão dispostas a pagar mais para terem um atendimento mais personalizado – isto é, haver menos pessoas a serem servidas por um trabalhador, como é possível na educação e saúde por exemplo – menos alunos por professor e menos pacientes por médicos/enfermeiros.

Os luditas modernos deviam era preocupar-se com as reais causas do desemprego – os impostos cada vez maiores que retiram incentivos ao investimento e ao trabalho e a louca expansão monetária promovida pelos bancos centrais que periodicamente gera crises financeiras. Infelizmente, muitos luditas modernos aumentam os seus rendimentos graças a estes impostos e expansão monetária e não podem, por isso, pensar nessas coisas. As máquinas  é que sim, é que ‘mandam a malta pró desemprego’.

Referência Bibliográfica: O estimado leitor pode ler mais sobre este tema no capítulo 7 (“A maldição da Maquinaria”) do livro “Economia numa Lição” de Henry Hazlitt. Este livro está também à venda em Portugal em formato-papel.

About the author

Rui Santos

Economista e Lead Researcher do Instituto Ludwig von Mises Portugal.