Trump! – Não Faças Asneira e Deixa Estar o Comércio Internacional.

Infelizmente, Donald Trump, que em certos aspetos tem sido uma lufada de ar fresco, não tem resistido à tentação (milenar, diga-se) de ceder ao canto da sereia do Neo-Mercantilismo. Os chineses e os mexicanos estão a tirar-nos o trabalho – aquele que conta mesmo, onde os operários usam fatos-macaco sujos de óleo, cimento ou tinta e trabalham em fábricas a sério, daquelas que fazem muito barulho e deitam muito fumo. Há que acabar com isto e travar as importações e a imigração.

Queria aqui dizer que é irrelevante para a discussão se o Yuan (moeda chinesa) está ou não desvalorizado devido às intervenções do Banco Central Chinês (comprando dólares contra a impressão de yuans). Quanto mais barato um produto melhor. Isso quer dizer que com o mesmo rendimento eu tenho mais capacidade de compra em geral e as pessoas costumam gostar disso… (exceto, talvez, alguns sociólogos).

A questão é se a população dos EUA que fica desempregada devido à troca de produção interna por produção externa se safa ou não. Claro que sim. Um exemplo: Nos EUA, no começo do séc. 20, em 1900, a população empregada na agricultura representava 40% do total dessa mesma população; em 2014 representava 1,4%. Se os presidentes americanos desde 1900 tivessem dado ouvidos aos apelos para “manter os postos de trabalho” a economia tinha, no mínimo, estagnado. Mas, pelo contrário, os EUA usufruíram de um crescimento médio da produção superior a 3% durante o séc. 20. Os trabalhadores adaptaram-se e deslocaram-se da agricultura para outras atividades.

Atualmente a situação não é diferente. O trabalho é um recurso escasso (por isso é que é pago) e é sempre pretendido noutras áreas. ‘Os tempos mudam e mudam-se as vontades’. Parar no tempo é morrer. O homem nasceu para criar e inovar, respeitando as boas tradições: “If I have seen further, it is by standing on the shoulders of giants.”

Por outro lado, se os americanos começarem a perder rendimento para a China a situação exportações/importações inverte-se.1 Já para não falar do caso em que os chineses com os dólares que recebem das suas exportações poderem usá-los para investimento (direto ou de carteira) nos EUA. Os americanos começam a importar menos e devido aos menores rendimentos e preços nos EUA, começam a exportar mais. (A Economia é um ecossistema harmonioso, sabia…?) Além disso, se os EUA começarem a travar as importações da China, através de quotas ou tarifas, aparecem outros países a exportar esses mesmos produtos a preços igualmente baixos. O que fazer aí? Restringir as importações em geral? Os EUA ficarão realmente melhor? A resposta a esta questão na positiva implica um reductio ad absurdum. Porque se esse é o caso então porque não o Estado da Califórnia restringir as importações de outros estados; porque não cada estado dentro dos EUA restringir a importação de todos os outros estados? E, dentro da Califórnia (que é 5 vezes maior que Portugal), porque é que Los Angeles não restringe as importações de S. Francisco e vice-versa? E, aqui em Portugal, porque é que a Régua não restringe as importações de Tondela (para proteger o vinho do Douro do Vinho do Dão)? E porque não começar a registar a balança comercial de cada distrito? É preciso ver se a balança comercial de Aveiro é deficitária e se está a importar demasiado do distrito de Beja, por exemplo. Se sim, então há que restringir a compra de produtos alentejanos. Deixo o resto à imaginação do leitor.

O argumento da restrição das importações é por isso um absurdo lógico. Nesse sentido os economistas da escola austríaca raramente criam um capítulo próprio para o comércio externo, já que na sua essência não difere do comércio interno (a única coisa materialmente diferente é a possibilidade da existência de moedas diferentes, mas isso até no comércio interno acontece – durante séculos tivemos um sistema de moeda bimetálico com moeda expressa em ouro e prata; atualmente temos a bitcoin e outras moedas eletrónicas a circular em paralelo com as moedas oficialmente nacionais dos bancos centrais).

Nota Bibliográfica: Se o leitor quiser ler mais sobre isto aconselho Reisman, pp. 343-371, esp. 350-367. Neste artigo também falei, em traços gerais, sobre a questão da imigração. O leitor deve complementá-lo com Reisman, pp. 362-366.

Referências   [ + ]

1. Já para não falar do caso em que os chineses com os dólares que recebem das suas exportações poderem usá-los para investimento (direto ou de carteira) nos EUA.
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Rui Santos

Economista.