A Senhora do Vestido Vermelho, os dois Kapas e a quarta de Stuart Mill.

Estava eu ontem à espera de ver a entrevista do Charlie Rose na Bloomberg TV mas em vez disso aparece um outro entrevistador que traz como convidados ao estúdio um editor de Economia do ‘Wall Street Journal’ e uma senhora de vestido vermelho, com manga cava e um colar de pérolas a tangenciar na perfeição a gola do vestido e que fala sobre Economia na estação CBS. O Charlie Rose está para Cuba a ver se consegue uma entrevista com o Raúl Castro. Poor Charlie…

O entrevistador levanta então a questão da descida de impostos que vai ser promovida pelo Donald Trump. Parece que lá na América toda a gente percebe que quando o objetivo é fazer crescer a economia e aumentar os salários reais, a medida mais óbvia é uma baixa dos impostos. Ao contrário do governo português, cujo objetivo é manter o poder através da compra de votos à administração pública e aos pensionistas mais endinheirados, o objetivo da administração Trump vai ser aumentar o crescimento da economia para 3/4% ao ano – incrível, como se pode ser tão inocente?… devem perguntar Costa e os seus acólitos.

Bom, sobre esse tema, o painel da Bloomberg discutia então o que é que fazia mais sentido: cortar mais os impostos nas classes altas ou nas classes médias/baixas? A senhora de vestido vermelho coloca então o problema nestes termos: “Uma descida dos impostos para a classe alta (os tais 10%, ou 5%, ou 1%, ou 0,01% – já não sei, a esquerda é que percebe destas coisas) significa um aumento da poupança pois estas pessoas já consomem o que querem; por sua vez, uma descida dos impostos para a classe média significa um aumento do consumo”.

Bom, a parte incrível é que eu até estava a concordar com a senhora e a pensar: “realmente, nesse caso faz mais sentido descer os impostos para a classe alta (para os…4,375% mais ricos, digamos)”. Mas eis que a senhora prossegue: “Faz assim portanto mais sentido diminuir os impostos para a classe média”. (O senhor do Wall Street Journal parecia que estava numa disposição de concordar contudo, mesmo que alguém dissesse que o mundo ia acabar amanhã)

Duas visões do Mundo

Bem, o que é que está aqui em causa? Duas visões da Economia, uma certa e outra errada. A visão clássica, sobre o ponto aqui em questão, é que só pode haver produção de bens de consumo se houver poupança prévia (a menos que os bens de consumo não levem tempo a ser produzidos – como é o caso dos frutos que Robison Crusoe apanhava na ilha semi-deserta). Está é a visão correta. A outra versão é a versão keynesiana – a procura é que gera a produção.

Porque é que John Stuart Mill está certo e John M. Keynes está errado?

A frase de John Stuart Mill que resume o assunto é a sua famosa 4ª proposição fundamental sobre o capital: “Procura por bens de consumo não é procura por trabalho”.1”Demand for commodities is not demand for labour” O que Mill afirma é muito simples:

  1. O consumo de bens exige a sua produção prévia (a menos que estejamos no estado da natureza em que o bom selvagem apanha fruta diretamente das árvores para comer);
  2. Esta produção exige um investimento inicial que só gerará um retorno no momento da venda do produto;
  3. Aquele investimento é um ato de poupança, isto é, é dinheiro que é usado na compra de fatores de produção tais como trabalho e maquinaria e não em bens de consumo.
  4. Daqui se conclui que se todo o dinheiro fosse usado para consumo não haveria investimento e o consumo seria de zero.

Um exemplo: Para se comprar flocos de cereais, esses cereais tiveram que ser semeados, processados, embalados e transportados. Todas estas atividades requereram um certo investimento – um gasto monetário em fatores de produção e não em consumo. Se ninguém usasse o seu dinheiro para produzir estes cereais ninguém os podia consumir, independentemente do dinheiro que possam ter. O Joãozinho ia correr para a prateleira dos chocapics recheados mas não haveria lá nenhum chocapic.

Daqui se vê que a visão keynesiana é um disparate. Infelizmente, Keynes (e os seus discípulos como Krugman e restantes diletantes que aprendem economia a ler jornais) cai no próprio erro que tanto gostava de assinalar aos outros (e de que o Paul Krugman é grande adepto, também) – a ‘falácia da composição’. Passo a explicar: A procura só é relevante para a quantidade produzida quando estamos a comparar a procura para duas ou mais empresas ou setores. Por exemplo, se a procura de maçãs aumentar em relação à procura de laranjas, então vai haver mais produção de maças e menos de laranjas. Mas a produção adicional de maçãs requer um novo investimento, isto é, poupança. O papel da procura é, então, direcionar o investimento global na economia para os seus diversos setores de acordo com as intensidades relativas daquela mesma procura. Mas o investimento global da economia é determinado pela poupança, pelo ato de gastar o dinheiro não em consumo mas sim em investimento. Assim, os dois Kapas, Paul K. e John K. confundem o papel da procura de consumo enquanto guia do investimento com a própria quantidade agregada do investimento. Mais procura significa mais produção apenas quando nos referimos a um dado setor em detrimento doutro. A produção global, essa, depende da poupança.

Não esqueçam portanto o velho Mill: “postos de trabalho e aumentos reais de salários só com poupança, que é o que permite o investimento”.

Nota Bibliográfica: John Stuart Mill: “Principles of Political Economy“, livro I, cap. V, sec. §9.

Referências   [ + ]

1. ”Demand for commodities is not demand for labour”
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Rui Santos

Economista.