BITCOIN: UMA MOEDA COM FUTURO?

O bitcoin (BTC ou XBT) foi o refúgio virtual dos mercados financeiros em 2016, com uma subida de duas vezes e meia desde os 400 dólares no início do ano para os 1.000 dólares em dezembro de 2016, usada pelos investidores para se protegerem da subida das taxas de juro nos EUA e das incertezas geopolíticas.
A 5 janeiro, o BTC atingiu um máximo histórico nos 1.161,88 dólares, perdendo de seguida quase 20% para os 889 dólares. A 12 de janeiro cotou no valor mais baixo do mês, 752 dólares, 35% abaixo do máximo histórico de há duas semanas. Após alguma turbulência em 2013 e no primeiro trimestre de 2014, a cotação iniciou uma subida consolidada até ao final de 2016.

O BTC é uma forma fácil de contornar o controlo de capitais. Cada vez mais apertados, nomeadamente na China, o controlo de capitais tornam o BTC uma alternativa viável e mais apetecível, e estiveram na origem da forte subida da criptomoeda o ano passado, e na elevada volatilidade em 2017. Tomada de mais-valias e rumores de que o controlo de capitais na China poder-se-ia estender, ainda que não se saiba como, às transações com bitcoins, levaram à forte queda e elevada volatilidade no início deste ano.

Para ter sucesso, uma moeda tem de preencher três requisitos: servir como meio de troca, como unidade de conta e como reserva de valor. A aceitação da BTC é restrita e apenas alguns negócios “legítimos”, como angariação de fundos, estão mais propensos a usá-la. Já como unidade de conta é pouco usada pois até os maiores entusiastas da criptomoeda a valoram noutras moedas, nomeadamente em dólares. A reserva de valor pressupõe constância, e o BTC tem registado um comportamento errático desde o seu nascimento em 2009. Poderá no futuro cumprir estes três requisitos? Pode. Mas para já não cumpre…

Há outras opções de reserva de valor como o ouro e a prata. O ouro cumpriria com facilidade os requisitos de moeda caso não fosse tão volátil e gerador de acentuados ciclos económicos, que podem surgir se se descobrir um incomensurável filão de ouro ou, por absurdo, haja acesso ao centro da terra que é constituído em parte por ouro. Foi a vinda de ouro do Novo Mundo que esteve na génese da “febre das Tulipas”. As principais moedas fiduciárias como o dólar, o euro, o franco suíço, a libra esterlina e o iene japonês, denominadas de “majors”, apesar de estarem ligadas ao Estado, são as que mantêm uma maior constância e garantia para quem as detém. Se os Bancos Centrais se focarem mais na supervisão, e menos na política monetária e cambial, e os Estados fossem rigorosos nas suas contas, a solidez e constância seria ainda maior…

A BTC é a primeira moeda descentralizada do mundo porque não depende de governos nem de Bancos Centrais. A ausência de uma entidade estatal torna quase impossível a influência na sua emissão ou na criação de inflação “imprimindo” mais notas. Porém, a sua elevada volatilidade causa incerteza na quantidade de bens e serviços que pode comprar a cada momento, existindo implicitamente um fenómeno de inflação ou deflação, logo ausência de estabilidade de preços.

Quando alguém recebe em BTC tende a transformá-los em moeda aceite a nível mundial, como euros e dólares. Porém, alguém compra esses bitcoins e o número desta moeda virtual permanece igual, não diminui, pelo contrário tende a aumentar. Mas para produzir mais BTC é preciso um investimento exponencialmente crescente em computadores, para “minerar”, decifrar o código cada vez mais complexo de um BTC. Esse investimento depende do valor do BTC a cada momento, para aferir se vale a pena investir. O crescimento de BTC tem crescido a ritmos decrescentes, até ao limite de 21 milhões de BTC possíveis. Como as moedas são guardadas com códigos de acesso nos computadores, “pen drives” ou discos rígidos, caso alguém perca uma pen com BTC, essas moedas ficam perdidas para sempre…

O número de transações com BTC tem crescido, mas a ritmos decrescentes. Em 2010 eram cerca de 7000 transações e em 2013 rondavam 2 milhões, um crescimento de 250 vezes. Em 2016 o número de transações rondava os 8 milhões, quatro vezes superior ao de três anos antes.

Paulo Rosa, semanário “Vida Económica”, 27 de janeiro 2016

About the author

Paulo Monteiro Rosa

Economista. Licenciado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Autor de vários artigos publicados no Jornal de Negócios, Diário Económico, Vida Económica, Público, Funds People, ATM-Associação Analistas Técnicos Mercados Capitais e Câmara de Comércio Luso-Americana. Autor do Blogue: Omnia Economicus.