O sector privado é mais caro?

Esta é a tradução de um artigo de Predrag Rajsic, economista de origem croata. O artigo original pode ser consultado aqui, bem como a sua adaptação para o Brasil.

Imagine que é um excelente mecânico e deseja abrir uma nova oficina no seu bairro. O seu objetivo é oferecer serviços básicos de manutenção e conserto de carros para pessoas de baixo rendimento. E a sua intenção é cobrar preços realmente acessíveis.

Para isso, o leitor iria cobrar o mínimo possível pela sua mão-de-obra, e utilizaria peças de reposição em segunda mão (mas decentes).

Esse seu serviço seria excelente para aquelas pessoas que querem apenas manter os seus automóveis funcionando por alguns anos a mais — ou seja, o seu empreendimento não seria nada de muito chique, apenas funcional.

Imagine agora que o seu vizinho, vendo que o seu modelo foi bem-sucedido, também decidia abrir uma oficina mecânica. Só que ele tem em mente um modelo diferente de negócio. Ele, por meio de um insistente lobby, conseguiu persuadir o governo local de que o acesso a serviços básicos de oficina mecânica é um “direito humano fundamental”, de modo que tal serviço deve ser oferecido gratuitamente para todos os cidadãos.

Dado que ninguém é capaz de ter lucro oferecendo serviços mecânicos gratuitos, torna-se necessária alguma maneira de financiar esse serviço. Sendo assim, o governo e o seu vizinho criam o seguinte esquema: o governo irá criar a “taxa da manutenção automóvel” e irá cobrá-la a todas as pessoas que tenham carros no seu bairro, independentemente de elas quererem ou não utilizar a oficina do seu vizinho. O dinheiro obtido será então transferido para o seu vizinho. Dessa forma, o seu vizinho abrirá a oficina e anunciará a todos que está oferecendo serviços básicos de manutenção e conserto de carros gratuitamente a todos que desejem.

Agora o leitor tem um problema. Mesmo que esteja cobrando o mínimo pela sua mão-de-obra e esteja utilizando as mais acessíveis peças de reposição — de modo que, por exemplo, cobra apenas €50 para trocar um pára-choques —, ainda assim estará a cobrar muito mais caro do que o seu vizinho subsidiado pelo governo, que cobra €0 pelo mesmo serviço.

O leitor pode tentar reduzir ainda mais o preço do seu serviço, não cobrando nada pela sua mão-de-obra. Mas, mesmo não cobrando nada pela sua mão-de-obra, ainda tem de pagar pelas peças de reposição que compra no mercado de bens usados. Esse é um custo que o leitor terá que assumir, e de reaver, caso contrário irá à falência. Ou seja, no longo prazo, terá de ter alguma fonte de rendimentos. Assim, não pode oferecer a sua mão-de-obra gratuitamente para sempre.

Portanto, reduzir o preço do seu serviço não irá torná-lo mais competitivo perante seu vizinho.  O leitor tem de oferecer algo diferenciado, algo que atraia aquelas pessoas que estejam dispostas a pagar por serviços bons. Pode continuar a tentar oferecer serviços básicos, mas aí terá de superar o seu vizinho, oferecendo serviços superiores aos seus clientes. Por exemplo, pode tentar ser mais educado e mais cortês do que o seu vizinho; pode oferecer serviços mais rápidos; pode dar algumas garantias a mais pelos seus serviços etc.

Mas a questão permanece: será que os seus clientes valorizariam tanto esses benefícios extra ao ponto de estarem dispostos a pagar, digamos, €50 por eles? Talvez alguns até estejam, mas é mais provável que a maioria prefira receber um serviço inferior, mas gratuito, a um serviço superior, mas que cobre €50.

Lembre-se de que os seus clientes são pessoas que querem apenas funcionalidade, e não coisas de primeira.  Eles não ligam muito às engenhocas extra que o leitor está disposto a oferecer.

Nesse momento, irá perceber que tem de mudar o alvo. O leitor terá de se concentrar em outro nicho de clientes. Agora, precisa de pessoas que não estejam satisfeitas com os serviços do seu vizinho, ainda que eles sejam gratuitos. O seu objetivo será cortejar pessoas com carros mais recentes, que queiram peças novas instaladas, e que também valorizem coisas como cortesia, pontualidade e conveniência ao ponto de estarem dispostas a pagar por elas.

É claro que esse novo tipo de serviço será mais caro do que aquele serviço simples e austero que o leitor estava a planear inicialmente. Agora, irá abandonar os seus planos de oferta de serviços básicos e, em vez disso, irá abrir uma oficina sofisticada e avançada, que ofereça serviços de alta qualidade a clientes dispostos a pagar mais caro.

Assim, passam a existir duas oficinas no seu bairro: a do seu vizinho, que oferece serviços básicos a preço zero, mas que é sustentada com o dinheiro da “taxa da manutenção automóvel” criada pelo governo e que incide sobre toda gente do bairro; e a sua, que oferece serviços superiores a clientes que estejam dispostos a pagar bem.

Qualquer visitante que olhe para essa situação sem saber o que se passou durante o processo de tomada de decisão irá acreditar que a sua oficina privada é inerentemente mais cara por puro motivo de ganância, e que o leitor é um elitista que se recusa a oferecer serviços a clientes mais pobres.

No entanto, está claro que essa é uma interpretação incorreta. Conhecer o processo de tomada de decisão que ocorreu nos bastidores, mas que ninguém viu, ajuda-nos a entender que o surgimento da oficina sustentada por impostos obrigou a oficina privada a abandonar os seus planos de oferecer serviços baratos. Mais ainda: empurrou a oficina privada para o mercado de serviços mais caros.

Nesse exemplo, a oficina privada não era inerentemente cara. A sua capacidade de oferecer serviços baratos é que foi impedida pelo surgimento da oficina financiada por impostos.

Utilizei um exemplo de uma oficina mecânica, mas é óbvio que a mensagem é muito mais geral. Esse raciocínio pode ser aplicado a absolutamente todos os produtos e serviços, e os resultados seriam semelhantes.

A existência de serviços básicos financiados por impostos expulsa a oferta privada do mesmo (ou até de um melhor) serviço, e estimula os empreendedores privados a concentrarem-se numa clientela de mais alto rendimento. Isso faz com que os serviços privados aparentem ser inerentemente mais caros. Mas essa é apenas uma impressão superficial. Entender a lógica das escolhas humanas que levam a esse resultado faz-nos entender por que não podemos deixar-nos enganar por essa impressão superficial.

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Pedro Almeida Jorge

Licenciado em Economia pela Nova SBE. Consultor. Contacto: linkedin.com/in/pedroalmeidajorge