Colchão – Arma de Destruição Massiva?

O texto que se segue é uma tradução de um artigo do economista espanhol Juan Ramón Rallo. Trata-se da apologia de um dos mais sinistros fantasmas da teoria monetária (e da opinião pública) desde que há memória de tais temas serem discutidos: o entesouramento. Será que guardar o dinheiro debaixo do colchão equivale a acender o rastilho de mais uma tragédia social quando o que precisávamos mesmo era de quem tivesse a coragem de gastar o seu dinheiro? Rallo dá-nos a resposta. O artigo original pode ser lido aqui.

O senso comum indica-nos que o dinheiro deve circular para que a atividade económica não se estanque. Se o dinheiro não circular e, portanto, os empresários não venderem o suficiente para compensar os seus custos, é crença geral que a economia vai entrar em recessão. Desta forma, a remoção de uma dada quantidade de moeda do sistema – entesourando dinheiro ou, como se costuma dizer, guardando o dinheiro debaixo do colchão -, na medida em que provoque um curto-circuito dos processos de compra e venda, tem vindo a ser considerada por uma grande parte dos economistas – tanto os keynesianos como os monetaristas – como a origem de todas as calamidades. Ou seja, apresentam como inadmissível que o mesmo bem que desempenha as funções de meio de troca sirva também para depósito de valor. Ao estilo do socialista Silvio Gesell, gritam que “o dinheiro deve ser um meio de pagamento e nada mais.”

Tenho para mim que o entesouramento é, nos dias que correm, o fenómeno da economia mais mal compreendido de toda a disciplina. Os nossos instintos evolutivos – açambarcar é errado – misturam-se com a nossa perspetiva enviesada da realidade – existe uma crise porque os empresários não vendem e os empresários não vendem porque os consumidores guardam o dinheiro debaixo do colchão – dando lugar a um cocktail de equívocos certamente explosivo.

A primeira coisa que devemos perguntar-nos é por que razão alguém entesoura dinheiro. Muita gente considera que o entesouramento é a resposta lógica às ânsias de poupar: se poupamos, se entesouramos, a despesa na economia diminui e a atividade desaba. Mas não, quem poupa pode simplesmente investir em diversos ativos (obrigações, ações, imóveis, stocks de matérias primas, etc.), ou seja, o menor gasto em consumo presente pode converter-se numa maior despesa em investimento (o que implica uma maior produção e consumo de bens no futuro).

Então, por que entesouramos? Por que adquirimos um ativo que não nos proporciona rendimento algum? Por que renunciamos à compra de bens de consumo que poderiam satisfazer as nossas necessidades ou de bens de capital que poderiam proporcionar-nos uma rentabilidade anual de 4%, 5%, 10% ou 15%? Basicamente, entesouramos o dinheiro porque não nos convence nenhum dos bens de consumo ou de capital que nestes momentos os empresários nos oferecem. Dito de outro modo, o entesouramento é uma maneira de protestar contra produtores que não se adaptam às preferências dos possuidores de dinheiro, quer seja na sua faceta de consumidores, quer seja no seu papel de investidores.

Imagine o leitor que dispunha de 150.000 euros e deseja comprar um imóvel no centro de Madrid por esse preço, mas ninguém parece querer vender-lho. Se muitas outras pessoas ajuizarem da mesma forma e guardarem o seu dinheiro, os agentes imobiliários (ou os proprietários de andares que desejem desfazer-se deles) terão de liquidar o seu stock com um desconto e arranjar maneira de passar a construir imóveis a um preço mais acessível.

O que fazer entretanto com o seu dinheiro? Gastá-lo em bens de consumo não é opção; basicamente porque, se gastar as suas poupanças, talvez nunca mais volte a conseguir acumulá-las de novo. O lógico seria, na verdade, que em vez de entesourar o dinheiro, o leitor o investisse enquanto espera que caiam os preços dos imóveis. Mas imagine que, de acordo com o seu palpite, encontramo-nos a meio de um boom económico artificial originado pelo crédito barato e que as bolhas nos preços dos ativos se espalharam por toda a economia. Os imóveis, como vimos, estão com um preço inflacionado; na bolsa, repete-se uma “exuberância irracional” semelhante à do dotcom; as dívidas pública e privada oferecem taxas de juro ridículas, a rondar o 1%… O que faria o leitor neste contexto? Comprar ativos a preços desproporcionalmente caros? Delapidar a sua poupança em bens de consumo e renunciar ao sonho de adquirir um andar em Madrid? Ou em vez disso não gastar o seu dinheiro em nada, esperando que os preços e a produção se ajustem ao que é por si desejado e pelo resto dos detentores de dinheiro?

Ora aí está, essa é a função chave do entesouramento: assegurar a soberania do consumidor e do investidor. Como consumidores, contar com uma boa reserva de valor assegura-nos que não nos veremos forçados a adquirir produtos encarecidos que os empresários nos oferecem, após terem erradamente valorizado as nossas necessidades: desta forma forçamos ou a que vendam os seus produtos defeituosos a um preço mais barato ou a que produzam outros bens pelos quais estaremos dispostos a pagar o preço que pedem.

Enquanto aforradores, uma boa reserva de valor garante-nos que não seremos forçados a investir em projetos empresariais que acreditamos serem excessivamente arriscados para a rentabilidade que prometem oferecer. Isto é, não destinaremos o nosso dinheiro – nem através de obrigações, nem através de ações – a empresas que não acreditamos que venham a satisfazer as necessidades futuras dos consumidores e que, portanto, estão a desperdiçar recursos. Ao entesourar, obrigamos ou a que nos ofereçam rentabilidades mais ajustadas ao risco que acreditamos estar a assumir, ou a que sejam feitos reajustes de forma a que o modelo de negócio se apresente mais previsível e seguro para os potenciais investidores.

Certamente, em muitas ocasiões – especialmente, nas que se seguem a um boom económico artificial baseado em crédito barato – o entesouramento dará lugar não a uma descida dos preços dos bens de consumo e de capital, mas sim a uma direta reorganização das estruturas financeiras e produtivas. Muitos empresários não podem dar-se ao luxo de vender mais barato sem entrar em falência ou sem se desfazerem dos seus negócios menos rentáveis. Neste caso, o temor de muitos – a começar por Keynes – é que apareçam de maneira inexorável “recursos ociosos” – desemprego – que não possam recolocar-se em nenhum outro ramo. Temor esse em grande medida infundado.

O entesouramento de moeda tende a elevar o seu valor face ao resto dos bens (levando a uma deflação de preços), e sempre que se eleva o valor de um bem económico – sem que paralelamente se aumentem os seus custos – a sua produção tende a aumentar. No padrão-ouro, o processo era bastante automático: quando aumentava o valor do ouro, os recursos ociosos eram direcionados para as minas para incrementar a sua produção (ou a da indústria exportadora, se se carecia de minas e se desejava importar ouro); se tal operação só fosse em parte possível, o entesouramento filtrava-se em direção ao mercado monetário, embaratecendo o desconto das letras de crédito (permitindo uma maior produção de certos bens de consumo muito procurados). Em ambos os casos, os recursos ociosos iam-se recolocando em pontos de produção provisórios à espera que o resto dos empresários reorganizassem os seus modelos de negócio e os voltassem a contratar (a taxa de desemprego nos EUA durante o século XIX, por exemplo, quase nunca superou os 5%).

Com um dinheiro fiduciário, o automatismo do ouro desaparece e tornam-se necessárias outras operações mais convolutas que frequentemente levam a distorções adicionais no sistema económico: o banco central passa a assumir o papel do mineiro de ouro, de modo que é a si que compete incrementar a provisão de dinheiro fiduciário quando o seu valor aumenta em consequência do entesouramento. No entanto, como sabemos, o banco central só consegue incrementar a quantidade de dinheiro através da monetização de ativos, abrindo-se nesse caso a complexa – e perigosa – questão de quais os ativos monetizar. Tradicionalmente tem-se optado por dívida pública ou privada a longo prazo, o que poderá relançar uma bonança artificial ou atrasar a correção dos erros empresariais acumulados, em vez de favorecer a sua liquidação rápida e limpa.

Definitivamente, há uma legião de gente que se escandaliza com o facto de a função de meio de troca e de reserva de valor coincidam num mesmo bem económico: a moeda. Quiçá, para clarificar a questão, devêssemos então dizer que a moeda é o meio de troca e não-troca de uma economia. Dizer que a moeda é um meio de troca para, ao mesmo tempo, negar ao seu detentor a possibilidade de recusar as trocas que não acredita serem proveitosas equivale a impor a toda a gente a obrigação de gastar e, portanto, supõe inverter a ordem de prioridades do sistema económico: não produziríamos para consumir, mas sim consumiríamos para produzir. Para que serviria um meio de troca com o qual não pudéssemos recusar as trocas prejudiciais?

A moeda, enquanto meio de troca aceite universalmente, permite o aumento da produtividade do sistema económico, na medida em que facilita um número infinitamente superior de transações e, por conseguinte, o aprofundamento da divisão do trabalho, do capital e do conhecimento. Da mesma forma, a moeda enquanto reserva de valor (ou meio de não-troca) permite forçar a correção dos erros que os empresários venham a cometer, sendo que, portanto, dificulta que essa divisão de trabalho, de capital e de conhecimento prossiga por circuitos ruinosos que na prática resultem na delapidação dos nossos recursos escassos. Todo o sistema que não conte com um mecanismo que limite as distorções que surjam ao longo da sua progressiva expansão está condenado a autodissolver-se sob o do peso de erros passados. Nesse sentido, ao corrigir os desajustes internos, a moeda enquanto reserva de valor também aumenta a nossa produtividade e revitaliza o sistema económico.

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Pedro Almeida Jorge

Licenciado em Economia pela Nova SBE. Consultor. Contacto: linkedin.com/in/pedroalmeidajorge