Liberalismo visto por esquerdistas 

Texto lido : https://www.youtube.com/watch?v=h1QgerR8kJY

Num comentário sobre um texto de um amigo meu no Facebook deparei-me com uma conversa que já tive a ocasião de ouvir. Estava então um esquerdista a explicar que os liberais não passam de um bando de fascistas, e afirmava isso por duas razões:

  1. As trocas voluntárias são pó atirado aos olhos, enquanto uma das partes tiver necessidade não se pode falar de algo de livre e voluntário;
  2. O ponto 1) implica que num mundo liberal, tem poder quem tiver dinheiro.

 

  • Quem tiver necessidade não é livre

Vamos então por partes. Como se define a necessidade? Não existe infelizmente definição consensual, aliás como aprendemos logo na primeira aula de Economia no ensino obrigatório – e quem tem pelo menos um neurónio a funcionar – as necessidades são infinitas, os recursos é que são finitos (pelo menos para o período considerado). É impossível definir o que é necessário para uma pessoa, e isso é muito bem ilustrado no ramo da Saúde: uma pessoa tem um problema, mas qual é o tratamento adequado? O mais caro? O mais longo? A que ponto tem de mudar de vida? E o que fazemos da disposição constitucional, ou seja, das próprias características da pessoa? E se aparecer um novo tratamento entretanto? Ou se está por vir um outro, esperamos ou não?

Como podem ver, definir o que é necessário é uma tarefa árdua. No entanto é possível estabelecer uma lista de critérios objetivos, um bocado abstratos claro. A lista que se segue contem o mínimo necessário para se ter uma vida saudável para uma pessoa:

  • Alimentação: 5 frutas e legumes por dia, carne de caça ou de insectos e água potável, para três refeições.
  • Alojamento: 20 metros quadrados, bem isolados e a uma temperatura média de 20 graus o ano todo.
  • Vestuário: cerca de 20 mudas de roupa, para as diversas alturas do ano.
  • Saúde: pelo menos um seguro de saúde que cobra as diversas despesas em particular as mais pesadas.
  • Responsabilidade Civil e Prejuízos: também um seguro para nos proteger caso soframos um prejuízo ou cometamos involuntariamente um.
  • Poupanças: quem não quiser fazer seguros, ou tiver de pagar uma franquia, o montante para fazer face a uma despesa imprevista de saúde ou um prejuízo qualquer.
  • Transportes: eventuais despesas de transporte entre o trabalho e o lar, mas sempre o mais barato em prioridade (a pé, bicicleta, transporte público em absoluta prioridade).
  • Educação: o que serve para o vosso trabalho.
  • Impostos: dificilmente se escapa a eles.

E mais nada! Nada de álcool, de telemóveis, de carros, de férias, de bolos, de sexo com preservativo (ou seja, esqueçam a penetração, salvo queiram crianças)!!!!

Tudo o que não está naquela lista é GANÂNCIA! É DESNECESSÁRIO!!!

Ou seja, ter uma vida pessoal parecida à de António de Oliveira Salazar!!!

Em Portugal ter uma vida “salazarista” equivale a ter, de maneira pessimista, 916 euros mensais brutos, 715 euros mensais limpos[1].

Ou seja, com 916 euros mensais pagam a comida, o alojamento, o vestuário, as despesas de saúde, prejuízos, as poupanças, os transportes, os impostos e a educação NECESSÁRIA.

Tudo o que está acima de 916 euros = GANÂNCIA, LUXO, DESNECESSÁRIO!!!!!

Viram? É esse o mundo dos esquerdistas. Uma maravilha, não é? Agora é curioso que apesar de termos gasto em 2016 cerca de 650 euros de impostos mensais em média, ou o Estado ter espatifado cerca de 690 euros mensais em média em cada um de nós[2], haver cerca de 30% dos portugueses que nem chegam a esse resultado[3]

Diga-se de passagem, que isto é um modelo altamente teórico, seria necessário existir uma burocracia híper simples e híper eficaz, capaz de dar os montantes exactos às pessoas (eventualmente de os controlar para que não tenham comportamentos desnecessários) e claro que os preços não tomem o elevador.

Moralidade: é impossível. Nem o Estado, nem um privado com concessão, NINGUÉM é capaz de fazer isso[4]. Olhai para vós próprios, quantos de vós são capazes de respeitar isso? Se têm dificuldades em fazer isso imaginem agora obrigar outros a tal (os pais mais especialmente sabem do que falo)!

Voltando ao que já temos hoje em dia, nós temos um terço da população que é “objectivamente” pobre, e no entanto gastamos o equivalente a metade da nossa riqueza com o Estado[5]. Não funciona!

“É uma questão de pessoas”. Não é! Uma burocracia não consegue gerir isso, há demasiadas oportunidades para roubar, demasiado dinheiro é mal gasto, ninguém é responsabilizado, grupos conseguem perceber a lógica do sistema para enriquecerem por muito que tenhamos o melhor dirigente à nossa frente. Já vos o disse, se sóis incapazes de ser rigorosos com vós próprios ou os vossos próximos, como podem acreditar que por magia o Estado, ou quem quer seja, vai conseguir isso?! Sem incentivos de preço e responsabilização?! A gerir uma monstruosidade complexa em que pode bastar a assinatura de um funcionário menos zeloso para dar cabo de tudo?!

É por isso que o livre mercado e o sistema de preços são tão importantes. Apenas o liberalismo é capaz de produzir os bens e de os alocar eficaz e eficientemente. Pode haver carências ou excessos? Claro, mas serão mais rapidamente corrigidos com essas instituições (caso contrário = falência). E mesmo para quem seja mais carenciado, quanto mais livre o mercado, mais oportunidades, mais empregos, mais produção, mais riqueza, mais tempo livre disponível, mais caridade possível, mais concorrência, mais tendência para os preços baixarem, melhor gestão dos recursos e produtividade. Em resumo, realiza-se a quadratura do círculo virtuoso.

É também essa a grande força do liberalismo, do capitalismo liberal: há mais opções. Pelo contrário os sistemas antiliberais limitam as opções, empobrecem tudo e todos.

Voltando à possibilidade de impor um mundo sem ganância, o pior não é a possibilidade de o fazer ou não. O pior é o arbitrário. O que eu propus é o mínimo ideal: em princípio socialistas, comunistas, ecologistas e afins devem concordar com os itens que enunciei. Mas imaginam como a vida seria chata nestas condições? E ainda estamos submetidos ao arbitrário dos dirigentes, é que eu ainda dou o direito a comer carne de caça e de insecto – com a moda dos vegans nem isso! Igual para a casa, podem muito bem viver numa casa a 15 graus com roupa mais robusta! Tudo isso “a bem do Planeta”…

Mais uma vez, serão eles a decidir pelos outros, a impor o que é bom ou mau. Ora quem gostava de fazer isso? Não eram os fascistas por acaso…

Diga-se de passagem, que isso de o Estado ser capaz de salvar o ambiente tem muito de falso. Os piores desastres ambientais ocorrem justamente por causa do Estado, enquanto que a propriedade privada e a pressão dos consumidores evitam muitos estragos, dissuadem-nos e, claro, uma ciência liberalizada permite alcançar maiores eficiências. Além do sistema de preços disciplinar, como disse em cima, os actores económicos que usam melhor os recursos. O Estado não, gasta mal e continua porque é pesado demais (nomeadamente sob efeitos das mais diversas formas de lóbi, funcionários públicos incluídos).

  • Quem tem dinheiro tem tudo

Em primeiro lugar não deixa de ser cómico fazer uma reflexão dessas quando a moeda está largamente monopolizada pelos Estados… Em todo caso esta afirmação é idiota.

Para já, quem tem dinheiro para comprar tudo? Ninguém. E mesmo que o tenha, é preciso que esse dinheiro renda algo, porque depois de gasto não fica nada. Como querem ter todo o poder a médio-longo prazo se não forem capazes de fazer lucro? Lucro ainda mais difícil de manter acima dos outros em regime liberal porque a concorrência acaba por fazer pressão para baixar os preços!

Muito importante, é preciso que haja quem esteja disposto a aceitar de vender, ceder ou o quer que seja! Se muitos são capazes de viver sem Iphones, Lacostes e demais caviar então funciona para o resto; na verdade como o esquerdista médio parece ser incapaz de viver sem coisas do género percebemos o porquê da suposta pressão das multinacionais para consumirmos: fraqueza própria.

O dinheiro também é um mero intermédio. Tem o valor que as sociedades lhe dão, e o valor é relativo. De que adianta a Robinson Crusoe ter um bilhão de euros num sítio onde não há nada por comprar? Voltamos assim à questão de haver quem aceite comprar: um rico pode ter muito dinheiro e querer subornar as pessoas, mas de que lhe servirá se ninguém aceitar fazer o que ele manda? E quanto mais o mercado for livre, mais oportunidades haverá e menor será a “necessidade” de uma pessoa ter de lhe obedecer.

“Ah, mas os ricos podem também formar máfias para roubar as pessoas”. Parabéns, acabou de explicar a própria natureza do Estado. O Estado é isso mesmo, uma máfia controlada por poderosos que rouba e distribui em função dos grupos e ideias dominantes, com carneiros mais ou menos submissos.

Assim, também o poder é algo de fundamentalmente relativo. Submete-se quem não tem força ou é estúpido o suficiente. A liberdade é algo de individual, é preciso também ser forte e esperto[6] o suficiente para ser livre. É a vida, os seres humanos são assim. Actualmente, com o próprio Estado, é preciso ser assim! E ainda é necessário ser mais forte e esperto porque o Estado é uma força sem real concorrência!

Agora como os esquerdistas costumam estar no lado forte da barricada, e estão a borrifar-se por fazer algo de positivo para os fracos, percebe-se porque têm tanta dificuldade em conceber coisas tão evidentes sobre a natureza humana…

[1] Este montante baseia-se nas contas que o Helder Ferreira publicou no seu mural Facebook, dia 29 de Novembro de 2015. Ele calculou que uma pessoa precisa, em Portugal, de pagar os itens seguintes :

– 250€ para renda de casa num sítio muito barato;

– 30€ para electricidade;

– 20€ para água;

– 100€ para transportes;

– 250€ para alimentação;

– 15€ para telefone;

– 50€ para outros (medicamentos, um ou outro “luxo”, roupa, sapatos, etc)

para um total de 715€.

Ora como este valor é líquido de contribuições e IRS (ambos 11%) significa que o salário mínimo não pode ser menos de 916€.

[2] Obtem-se esses valores a dividir o montante da receita/despesa do Estado pelos cerca de 10 milhões de habitantes de Portugal, a dividir por 12 meses : http://www.pordata.pt/Portugal/Administra%C3%A7%C3%B5es+P%C3%BAblicas+despesas++receitas+e+d%C3%A9fice+excedente+(base+2011)-2784

[3] https://portugaldesigual.ffms.pt/quanto-se-ganha-em-portugal

[4] Ludwig von Mises explicou isso melhor que eu no seu livro “O cálculo econômico sob o socialismo”: http://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=66

[5]http://www.pordata.pt/Portugal/Administra%C3%A7%C3%B5es+P%C3%BAblicas+despesas++receitas+e+d%C3%A9fice+excedente+em+percentagem+do+PIB-2788

[6] Esperto é quem consegue cair nas boas graças dos fortes, ou conseguir unir os mais fracos contra os fortes.

About the author

André Pereira Gonçalves

Colaborador do Instituto Ludwig von Mises Portugal, estudante em Direito na Universidade de Friburgo (Suíça), anarco-capitalista jusnaturalista.