Utopia e ideologia

Artigo de Gabriel Zanotti “UTOPÍA E IDEOLOGÍA” – http://gzanotti.blogspot.pt/2010/02/utopia-e-ideologia.html 

Vamo-nos deter um pouco mais no tema da ideologia.

Outra vez, aclaramos que não estamos a criticar. Não nos estamos a referir a ideias sobre sistemas políticos que, com a sua carga de essencial de opinião, se consideram melhores para a conveniência humana, nem tampouco a valores ético-sociais básicos da filosofia política, como o respeito pelo bem comum, a limitação do poder, etc. Estamo-nos a referir ao seguinte.

Em primeiro lugar, a ideologia, mais do que conteúdos concretos, é uma atitude, a qual parte de uma premissa fundante: existe o sistema social perfeito. Não importa que seja possível ou impossível, que de facto exista ou tenha existido tal como o sistema social X; o importante – por isso diz-se que é uma atitude mental – é o que se concilia como “perfeito”. O ideólogo acrescenta a isto a sua premissa gnosiológica, que foi qualificada de “racionalismo construtivista” (1): é possível conhecer perfeitamente os meios que racionalmente conduzem a esse ideal. Dadas premissas, há duas outras características que emanam de conclusões necessárias: este sistema é a única opção moral possível, pois, se é perfeito, assim como se elimina absolutamente toda a margem de pobreza, guerras, de ignorância, como vai ser moralmente legítimo optar por outro sistema que deixe margem para sofrimento, que, mesmo que mínimos, podem-se evitar? A outra conclusão é: esse sistema é a última etapa da história. Não no sentido de que não se possa abandonar o sistema, mas no sentido de que um abandono seria um retrocesso. Isto é, dado este sistema, a humanidade não pode socialmente avançar mais. Por quê? Muito simples: porque esse sistema é perfeito (2).

A isto agrega-se uma quinta característica, mas não necessária, senão baseada numa conjetura dada a compreensão empática da natureza, humana: a tentação da violência (3). Isto é, pode ser possível um ideólogo tranquilo, sentado na sua cadeira, contemplando este mundo espantoso ao lado da pureza do ideal de considera possível, escrevendo, falando e esperando pacificamente que a humanidade “se convença” do que ensina. Mas é difícil. Se todo o sofrimento se pode eliminar assim, de um dia para o outro, com essa implicação da ordem social perfeita… Por quê esperar? Não é por acaso uma violência injustificada a ignorância dos dirigentes que tanto sofrimento causaram aos seus semelhantes? Não clamam a justiça aos gritos de povos submetidos às torturas da imperfeição? Quanto mais inteligente e bom for o nosso ideólogo, pior. Pois estudaram-se as condições da guerra justa que convém desde a escolástica, então, a revolução armada contra a violência da imperfeição pode ser entendida como uma legítima defesa cujo momento está por chegar de um momento para outro…

Por suposto que há ideologias que colocam a violência como uma etapa necessária da sua visão do mundo. Assim foram o marxismo-leninismo e o nazi-fascismo. Mas colocamos a esta quinta característica como não necessária porque tudo pode ser ideologizado. Se alguém supõe que a democracia constitucional é um sistema social perfeito (o qual é um erro: é bom, mas não é perfeito) então… Analisemos por um momento as possíveis origens da primeira e da segunda premissas. Habitualmente é uma metafísica racionalista muito bem-feita, como o materialismo dialético que inspirou o marxismo-leninista. Essas metafísicas têm filosofias da história que pretendem conhecer as etapas necessárias da história humana; daqui a negação do livre arbítrio, a justificação de tudo aquilo que leva à etapa final e a pretensão da impossibilidade de julgar desde fora alguma dessas etapas – ninguém pode estar fora do processo necessário; quem pretende estar, criticando a ideologia em questão, é um antirrevolucionário (e, consequentemente, um inimigo da humanidade).

Por suposto, esta última característica é acompanhada por outra que pode estar depois da quarta e antes desta. Desprende-se necessariamente das primeiras quatro. É a certeza absoluta da crítica. O ideólogo não dia-loga; monologa. A crítica metódica da qual falamos está coerentemente excluída, pois, se existe o sistema social perfeito e se conhecem perfeitamente os meios que conduzem a ele, nenhuma crítica pode agregar algo ao sistema. Sumamente, um ideólogo pacífico, tipo ideal (4) difícil mas possível, pode submeter-se à crítica metódica para ver se se podem melhorar os seus meios argumentativos e retóricos da difusão da sua ideologia, mas não como algo que verdadeiramente agregue algum aspeto da realidade que desconhecia. Por suposto, voltamos a conjeturar que, psicologicamente, do monólogo permanente da violência física (pois o monólogo é uma violência linguística) há um passo muito ténue, muito subtil, muito próximo.

A hermenêutica do mundo, para o ideólogo, é muito singular. Para ele não há preto, cinzento e branco. Há preto e branco. Isto é: o não ideologizado é capaz de ver o mundo como cinzento, e esse cinzento é um êxito frente ao preto das guerras e das misérias absolutas. Sabe que o branco é impossível e que as tentativas de consegui-lo conduzem ao negro. Por isso as sus propostas são melhores medidas concretas para melhorar tal e qual aspeto (5), e não propostas globais de perfeição.

O ideólogo, ao contrário, vê o mundo, que na realidade é cinzenta, como um preto permanentemente ao lado do possível e alcançável branco que propõe. Isto é: o que para não ideologiza lo é suportável porque é um bem social possível, ao lado, do impossível, para o ideólogo esse bem é insuportável, um preto total, ao lado do perfeito, o branco, perfeitamente realizável.

Outra fonte importantíssima das ideologias é o clericalismo, atitude que pode dar-se em qualquer religião. Isto é, a crença de que Deus relevou qual é este sistema social perfeito, e que é nosso dever, por onde, seguir essa relevação. Esta fonte é particularmente perigosa quando o ideólogo se sente ainda mais tentado a utilizar a violência e a justifica-la, se é necessário, como um profeta – armado até aos dentes – das iras de Deus perante este mundo pecador.

No cristianismo, isto é, um erro terrível (6). Jesus Cristo redimiu cada coração, essa redenção tem efeitos temporais, mas abertos a uma pluralidade de opções legítimas tanto que não contradigam o essencial da mensagem relevada (7). Jesus Cristo não relevou qual é o melhor regime político, por mais que os diversos integrantes cristãos, de esquerda ou de direita, pretendam o contrário. Desejou com esse tema a livre opinião dos homens (8). Sobre tudo, há um conceito aqui que o ideólogo-religioso não consiga aceitar: a tolerância, em função de um bem maior (9), e a tolerância quando esse bem maior é o respeito da consciência (10). Este último ponto é especialmente relevante. Não seria um mundo sem o pecado que a liberdade religiosa produz? Não, seria pior. Porque a liberdade religiosa não procede do pecado: fá-lo mais visível e sincero. E um mundo onde os homens pecam no seu coração e ocultam a imposição da manifestação externa do pecado pelo temor servil a implosão de uma fé pela força é um mundo falso, hipócrita e explosivo (11). A verdade far-nos-á livres, e a liberdade fasear-nos-á verdadeiros.

O não ideologizado não carece de ideais políticos; simplesmente, considera-os bons, perfectíveis, opiniões em certa medida, não perfeitos. Essa é a distinção essencial. Não é questão de contrapor o idealismo ético das utopias contra certo “pragmatismo”, “realismo” (no mal sentido do termo) de quem se opõem intelectual e vitalmente a certas utopias. Esse é um recurso dialítico muito útil especialmente caro a certas utopias violentas que perderam grande parte do domínio do planeta. Esse assunto é precisamente ao contrário. A crítica das utopias desenvolvida por Karl Popper, por exemplo, a sua defesa da não-violência e a responsabilidade social do intelectual (12) estão baseadas numa ética muito profunda. A ética do diálogo, da tolerância, do respeito ao dissidente (13), onde aflora a perfeição da devida tolerância do imperfeito.

Agora bem, tudo dito até agora seria absolutamente insuficiente se esquecemos um tema central: por que as duas primeiras premissas da atitude ideológica são erróneas? Por quê não pode existir um sistema social perfeito e não podem conhecer-se perfeitamente os meios a que ele conduz? Porque a natureza humana é imperfeita, e o conhecimento humano, limitado.

A natureza humana é imperfeita, não no sentido da sua essência, que quanto tal, ontologicamente, tem tudo o que a essência humana requer, nem tão pouco no sentido do livre arbítrio, que é uma perfeição (14). É imperfeita por certa tendência ao mal moral, reconhecida como natural sobre tudo por todos os membros da escola escocesa de pensamento político (15) e de modo sobrenatural pela relevação cristã sobre o pecado original. A razoável objeção sistemática que a natureza de cada individuo pode ser imperfeita mas o sistema social, enquanto sistema, não, discute com a segunda parte da nossa resposta: o conhecimento humano é limitado. Pretender elaborar e conhecer um sistema, de toda a margem de contingência e possibilidade de falha, é uma pretenção do racionalismo construtivista que como tal não é compatível com o conhecimento limitado da essência das coisas; sistemas inclusive. Então, é óbvio que os sistemas estão para absorver e evitar imperfeições que de outro modo sairiam à luz. O sistema político da primeira república norte-americana, na nossa opinião, foi um exemplo de absorção sistemática da imperfeição humana. Com efeito, o sistema partiria do que a natureza humana tem ao abuso do poder, e limitado pelo sistema constitucional. O assunto é, novamente, se essa absorção sistemática pode ser perfeita. E, outra vez, a resposta é não. Não há sistema humano que consiga pôr-se por cima do humano.

O único que, precisamente pode ser sobre-humano, mas não anti-humano, e pode reclamar perfeição, é o amor a Deus movido pela sua graça. E isso, levado à plenitude, é a santidade. E por isso, não é casual que sejam santificadas pessoas e não sistemas. “Sejam perfeitos, como o meu Pai é perfeito: não foi um mandato destinado a um determinado sistema social, mas a exigência mais intima que dorme em cada coração humano, e que, uma vez acordada, rejeite, como parte da sua santidade, toda forma de violência, física, linguística, actudicional, presenteado ao amor, e só a este, como linguagem da verdade.

  1. Hayek, F. “Los errores del constructivismo” [1970], No livro Nuevos estudios en filosofía, política, economía e historia de las ideas; Eudeba, Buenos Aires, 1981.
  2. Estas quatro características, acrescentando a quinta que vamos explicar agora, não foram expostas por essa ordem por nenhum autor que conheçamos; no entanto, nada disso teríamos podido sistematizado sem as nossas fontes inspitadoras de Popper, K.: “Utopía y violencia” [1947], no livro Conjeturas y refutaciones, Paidós, Barcelona, 1983, y Spaemann, R.: Crítica de las utopías políticas; Eunsa, Pamplona, 1980.
  3. Ver Popper, op. cit.
  4. No sentido weberiano.
  5. Popper, K., op. Cit.
  6. Ver Spaemann, R., op. Cit., cap.
  7. Ver Concilio Vaticano II, Constitución pastoral Gaudium et spes, cap. III, ponto 43.
  8. Ver León XIII, “Cum multa’’ [1882], en Doctrina Pontificia, t. II, Bac, Madrid, 1958, p. 132; “Inmortale Dei”, op. , p. 218; “Sapientiae christianae”, op. Cit., p. 282; Pío XII, “Grazie”, op. Cit., p. 821.
  9. Tomás, I-II, Q. 96, a. 2, c.; I-II, Q. 95, a. 2, ad 3; Pío XII, “Comunidad internacional y tolerancia” [1953], em Doctrina Pontificia, op. Cit., p. 1008. Sobre o tema da opinião essencial dos sistemas políticos demos especialmente o detalhe em “La temporalización de la Fe”, em Cristianismo, sociedad libre y opción por los pobres, VVAA, Centro de Estudios Públicos, Santiago de Chile, 1988. Observe-se que estamos a citar para estes temas a quem alguns integristas citam para os seus fins: Sto. Tomás, León XIII y Pío XII.
  10. Ver a declaração sobre a liberdade religiosa, Dignitatis humanae, del Concilio Vaticano II. Sobre a suposta contradição do magistério do Vaticano II sobre o tema e do magistérios anterior, ver o nosso artigo “Reflexiones sobre la encíclica ‘Libertas’”, em El Derecho, (7090), 1988.
  11. Ocorre habitualmente nas sociedades que têm a uma transição de regimes autoritário-relegiosos para regimes democráticos com distinção entre Igreja e Estado? Não há uma espécie de “explosão” de “maus costumes? Os integristas, habitualmente, atribuem ao regime recém instalado. Cometem um erro: o regime recém instalado não faz mais do que deixar de ver os terríveis efeitos do pecado original, que foram tratando de ser inutilmente ocultados por um onde de um ingénuo autoritarismo. E mais: esse coração humano não se esconde, senão que se inflama mais perante o poder do autoritarismo. A rendição de Cristo nada tem a ver com a polícia e com as prisões, ingénuos, inúteis e irrisórias tentativas de substituição do poder Salvador do olha de Cristo na cruz (Esta reflecção não se contrapõe em absoluto com a “função educativa da lei humana positiva”.
  12. Popper, K.: Tolerancia y responsabilidad intelectual, op. Cit.
  13. Ver Artigas, M.: Lógica y ética en Karl Popper, op. Cit.
  14. Tomás, Suma Contra Gentiles; Bac, Madrid, 1967, t. II, livro III, cap. 73.
  15. Ver Gallo, E.: “La tradición del orden social espontáneo: Adam Ferguson, David Hume y Adam Smith”, em Libertas (6), 1987; e, do mesmo autor, “La Ilustración Escocesa”, em Estudios Públicos (30), 1988.
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Jóni Coelho